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VÍDEO DO DIA

Já se passaram 10 anos? Duvido!



Minha primeira música, oficialmente falando, nasceu quando eu tinha 15 anos. Antes disso eram só improvisos logo esquecidos. Mostrei aquela pedra bruta para meu irmão que já era compositor, Osmar. 

Mais velho e experiente, ele me disse: "...ah, legal pra quem tá começando. Mas cuidado: tá meio brega isso aí!". 

Eu nem sabia o que era "meio brega". Que eu soubesse, lá em Feira de Santana, "brega" era uma casa onde certas mulheres davam "mimos" por uns trocados... 

Só sei que, depois de pesquisar esse novo sentido pra "brega", fugi dele com toda dedicação. 

Acho que esse foi, de certa forma, um equívoco. Se tivesse me esmerado em fazer música brega talvez hoje eu possuísse uma frota de jatinhos e fosse conhecido nacionalmente. 

Mas lá fui eu atrás de letras complicadas e cheias de metáforas, imagens, palavras que não aparecem nem nos dicionários e etc. 

Resultado: tive que me contentar com a internet - único universo capaz de receber essas canções amalucadas. 

Mas antes da internet ser esse fenômeno global, na minha busca por levar as canções aos ouvidos, encontrei num sarau, há mais de dez anos, um cara com uns tiques esquisitos e talento cancionista. Fernando Anitelli. 

Ele me chamaria logo para tocar numa banda (Madalena 19) que faria dois ensaios e meio com um conjunto de músicos formado por guitarra/voz, baixo, bateria, eu ao violino e um tecladista misterioso que nunca apareceu. Nem mesmo no único show realizado antes da banda virar passado. 

Lá se foram: Fernando para os EUA, Galldino para as bandas country e os outros para outras "bandas". 

No entanto, um ano e pouco depois eu estava outra vez com Fernando. Agora era num estúdio gravando uma produção confusa, sem estrutura nem base. E eu pensava assim: "esse cara é meio lôco!". 

Naquele dia, saí quase do fim do mundo, de um lado, indo parar depois do outro fim do mundo, no outro lado (o mundo tem muitos fins...), onde encontraria o técnico de som mais "figura" de todo o universo: Nardão (Estúdio Bonham). 

Toquei umas duas frases sopradas pelos dois caras e de resto fui fazendo o que "rolasse na hora". No fim, eles disseram: "fica tocando aí..." 

As frases saídas dessa experimentação estão por toda parte no CD que mais de 1.000.000 de pessoas compraram: "Entrada para raros". 

Nele ainda há uma música instrumental, 22-11, cuja melodia saiu em um take rápido, na sobra de tempo daquela sessão de gravações. 

Talvez, justamente coisas como essas tenham dado um quê de mágico ao CD. Você bem sabe que magia não é matemática, não é física e nem é química. É isso "tudo numa coisa só!"

Ao sair do estúdio, Fernando me chamou num canto e me "pagou" R$10,00. Na estação de trem (é, antes do ônibus, do jegue, da barca...) eu comprei um copo de Fanta, um sanduíche de presunto e queijo e economizei uns R$4,00 para comprar as passagens. 

O fato é que eu não sabia (nem eles) mas naquela tarde insólita estava ajudando a fundar um projeto que iria percorrer o Brasil renegando as estruturas que negavam as minhas letras "bizarras". 

Iríamos refutar não só a indústria fonográfica, mas também as estruturas viciadas do show biz. Isso, à época, não era morte certa pois nem pra nascer daria. 

Mas deu: nasceu e perdurou. 

De lá pra cá há muita história. 
Muita história...

Tenho um certo orgulho do fato de que meu tijolo musical, frágil e discreto, tenha feito parte do alicerce, da construção e da consolidação de uma alternativa que se tornou, pra maioria, a mais viável hoje, dez anos depois. 

"Fiz uma canção pra ela", única parceria composta pela dupla que se encontrou naquele sarau, 
é uma espécie de selo desse alicerce. Acho que eu e Fernando fizemos essa canção pra ela - a história dos tentáculos num mesmo motor. 

Aqui meu olhar vai, claro, bem além d'OTM (um pequeno fenômeno dentro de outro sem proporção). Falo de cultura. 

Nas engrenagens que movem essa máquina somos pequenas peças. Mas somos individuais e temos funções e valores próprios. 

Artistas autônomos, cada um em sua própria trajetória e aventura.

O fenômeno maior, duradouro e espontâneo, é a cena do "faça você mesmo", da "calda longa", do download, do compartilhamento, das redes sociais... 

E como toda manifestação coletiva, esse patrimônio é de todos nós. Somos nós todos. 

Nossa história passa e é transpassada por ela, numa intersecção na transversal do tempo. 

E assim, n'OTM, n'As claves, n'O baile ou onde for, fazemos nossas as canções. Tantas cações. (Nem) todas as canções. 

Parabéns aos 10 anos do Teatro Mágico. Mas parabéns também pra todos que participam e/ou participaram desse mosaico cultural. 

Ama a vida e segue!