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VÍDEO DO DIA

Um manifesto em forma de canção

O povo "caminhava na Praça da Sé" e em tantas outras praças como essa contestava, reivindicava e  impunha sua cidadania no "seleiro do esconjuro", aquele cenário assombroso "onde o bóia-fria ainda disputava o grão, afundava no mundo o pé e atravancava o futuro" em sua condição de injustiçado, ainda hoje em pleno século XXI. Ele, em relação ao progresso que construiu, "era a obsolescência que lhe negava". 

Sim, pois do ponto de vista da economia, o povo impede o tão almejado futuro. Pra ela, ele é obsoleto, velho, arcaico e inútil pois seu real sofrimento nega a irreal ideia de prosperidade global. Afinal, todo mundo sabe que não dá pra raiar esse tal futuro, nem novidade alguma nos anima num mundo em que tantos seres humanos são desrespeitados e maltratados. Pense bem, de que adianta o projeto GENOMA pra quem vai morrer de disenteria no próximo verão?

Assim, a vergonhosa miséria humana revela a farsa do progresso futurista: o ser humano evoluiu, evoluiu, evoluiu e continuou, essencialmente, sendo o mesmo lixo escroto: os donos do poder não largam o osso, querem tudo e vão roendo até o tutano. O resto (no caso, bilhões de pessoas) é refugo mesmo. 

Cá do nosso lado, não podemos mais seguir como aqueles que se contentam e se ajustam por guardarem "nas mentes a resignada fé" assim, de forma ambígua, como um "obscurecer", uma "couraça", uma falsa proteção que na verdade é muito cruel. Também não devemos continuar como aquele tolo que "cantava aos brados, de pé, hinos à própria mordaça". 

E saiba, é isso o que acontece quando repetimos de forma servil, acrítica e quase encantada, as afrontas dos (de)formadores da opinião midiática. Recebemos e repercutimos como se fossem a única verdade, exaltando os oráculos bestiais e sua arrogância que nos despreza. 

Note que ao defender os ideais da elite (sócio-econômica) sem ser dessa elite, estamos cantando hinos que nos negam o direito de cantar os nossos próprios hinos, as nossas verdades, as nossas demandas e necessidades. Estamos bradando ideias que nos roubam a coragem de ter ideias pensadas por nós mesmos, a partir de nossa realidade. E é aí então que somos como o idiota contraditório que "cantava aos brados, de pé, hinos à própria mordaça". 

Hoje, cidadãos do mundo em que estamos, carecemos de mostrar que  somos "bem mais que virtuais" e temos "virtudes reais". Por isso que através da rede virtual são convocados "farrapos, rotos" e maltrapilhos para seguir "além dos 'labels'", dos rótulos que inventaram para os definir como estúpidos alienados.  

Os poderosos já sabem que os internautas "acessam seus 'ins'" e "saem buscando 'sis'". Ou seja, já sentiram na prática que essa geração quer se descobrir e saber onde está o íntimo de sua ética, de sua moral. E quer compartilhar, repartir, dividir e somar esses à outros valores comuns e distintos. 

Se você ainda está aí cheio das ideias deturpadas e nauseantes dos semanários e dos jornalões vendidos (aqui com duplo sentido), saiba que estão lhe conclamando agora em algum blog, em algum mural: "crê num mistério novo, peita velhos canhões!"  

O gigante adormecido despertou: "tornemos, salões e praças, nossas; domemos leis e leões. Tomemos a história à nossa pena, o destino pelas mãos!" 

Ama a vida e segue às ruas!

Os trechos entre aspas são a letra da canção de 2005 "Consciência - o que foi... o que pode ser" - http://youtu.be/6hWX8IQk59A