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VÍDEO DO DIA

A memória brasileira vai pro lixo

Deu no Brasilianas (bit.ly/rY7r8b)

ACHADO
No lixo estava um pedaço de Santos

Jornais, documentos e fotos de Pagu foram resgatados de uma calçada

Elcira Nuñnes y Nuñez
Da Reportagem

Toda madrugada, quando o relógio marca 2 horas, Selma Morgana Sarti, de 42 anos, sai de casa em busca de material reciclável pelas ruas da Zona Oeste, no Butantã, na Capital. Jogado nas calçadas, encontra de tudo: quadros, móveis, tapetes, talões de cheque em branco e até dinheiro.

Mas o seu grande achado aconteceu há cerca de quatro meses, quando em meio a jornais recentes, descobriu publicações antigas, fotos e documentos originais da escritora, jornalista e militante política Patrícia Galvão, a Pagu, e do jornalista e crítico Geraldo Ferraz, seu último companheiro. Doado por Selma, o material atualmente faz parte do acervo do Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp.

"Não sei dizer onde encontrei o material. Porque vou juntando nos sacos plásticos e só separo no final do dia para reciclar. Mas o que me chamou a atenção foram os jornais antigos anexados a fotos da mesma pessoa que estava estampada nas páginas. Junto tinha também placa de metal em homenagem a Pagu", conta a catadora de papel, que nunca tinha ouvido falar na jornalista.

"Eu fiquei sabendo que passou um pouco de sua vida na minissérie Um Só Coração, mas, na hora que dava, eu estava dormindo. Mas, mesmo que tivesse assistido, eu acho que não ligaria as coisas, porque ela não era o centro da história".

Mesmo sem saber da importância do que havia encontrado jogado no lixo, Selma levou o material para mostrar à sua ex-vizinha Cristina Dunaiva, estudante de Filosofia. "Quando ela viu, ficou admirada. Falou 'é a Pagu', o que pra mim era um monte. Na minha mão, aquilo não tinha interesse, por isso resolvi doar".

No lixo foram encontrados dois retratos de Pagu, assinados por fotógrafos expressivos da época, e duas fotos - uma ao lado de Geraldo e outra saindo do presídio, sua carteira profissional original, expedida em 30 de abril de 1946, uma medalha recebida no Festival de Teatro Amador de Santos em 1959 e uma placa de homenagem póstuma a Pagu, feita pela Câmara de Santos em outubro de 1998.

E mais quatro carteiras de identificação de Geraldo Ferraz, uma delas de A Tribuna, datada de 1 de janeiro de 64, quando exercia o cargo de secretário do jornal, quatro fotos do jornalista e ainda uma prova do jornal Diário da Noite de 22 de abril de 1938, com matéria relatando uma das prisões de Pagu, e um caderno de recortes de jornais com anotações de Ferraz, incluindo uma matéria feita por ele após a morte da esposa, em 1962.

O acervo encontrado por Selma pertenceu ao filho de Pagu, Geraldo Galvão Ferraz, que vive atualmente nos Estados Unidos. Em litígio com a ex-mulher, ele diz que os documentos e fotos de seus pais foram atirados ao lixo à sua revelia, mas que felizmente estão em boas mãos, na Unicamp.