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Os percalços que ameaçam a turnê de João Gilberto

Problemas de saúde e datas em aberto aumentam dúvidas em relação aos shows

Cristina Tardáguila



João Gilberto em show no Teatro Municipal, em 2008 / AFP Ari Versiani / AFP

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RIO - No dia 10 de junho, quando o cantor João Gilberto completou 80 anos, uma dupla de baianos pouco conhecida no Sudeste surpreendeu o país ao anunciar que o pai da bossa nova embarcaria numa turnê organizada por eles em cinco praças — São Paulo, Rio, Salvador, Brasília e Porto Alegre. Amigos e conhecidos os alertaram sobre os riscos de trabalhar com João, que já cancelou shows na última hora, abandonou palcos em plena apresentação e tem um cuidado extremo com a acústica. Mesmo assim, Maurício Pessoa e Antonio Barretto Junior, que nunca trocaram uma palavra com o cantor, seguiram em frente. Viam na oportunidade oferecida e costurada pela produtora Claudia Faissol, mãe da filha mais nova de João e sua atual empresária, o trampolim que lhes faltava para expandir seus negócios.

— Quando Claudia nos devolveu a minuta de contrato aprovada por João, pensamos: “Agora vai ou racha.” E fomos — lembra Barretto Junior, uma figura alta e de pele bronzeada.

No último dia 2, exatas 72 horas antes do que seria a primeira apresentação, no Via Funchal, em São Paulo, veio o primeiro revés: o cantor padecia de uma infecção nas vias aéreas e tinha sinusite. Seu médico, o geriatra Jorge Jamili, requeria, por escrito, que João se tratasse por 15 dias.

Da noite para o dia, os baianos adiaram para dezembro os shows em São Paulo e no Rio, postergaram indefinidamente as apresentações de Brasília e Porto Alegre e até hoje não acertaram a de Salvador. Quem se aproxima da dupla vê que a aguardada turnê de João Gilberto precisará vencer uma série de informações desencontradas para finalmente acontecer.

A primeira delas diz respeito ao adiamento dos shows de Brasília e Porto Alegre. Originalmente marcados para 19 e 25 de novembro, respectivamente, eles poderiam ter sido mantidos, já que respeitariam o prazo solicitado pelo médico de João para sua recuperação — que vai expirar na próxima sexta-feira, dia 18.

Em segundo lugar vem a informação divulgada pelos dois produtores de que esses shows não foram remarcados porque o Centro Cultural Ulysses Guimarães, na capital federal, e o Teatro Sesi, em Porto Alegre, não dispunham de agenda. Procurados pelo GLOBO, o centro brasiliense informou que seu palco está livre no dia 15 de janeiro, e o Teatro Sesi, que teria condições de receber a turnê ainda neste ano, em 22 de dezembro. Mesmo assim, Pessoa e Barretto Junior se mantiveram firmes na decisão de devolver o valor pago pelas quase 2 mil entradas que haviam sido vendidas nessas duas praças e arcar com os transtornos e os custos desse processo.

A sensação de instabilidade atinge o ápice, entretanto, quando a conversa tangencia a apresentação remarcada para o dia 21 de dezembro no Teatro Municipal do Rio.

— O Rio está esgotado! — afirma Barretto Junior, taxativo, uma hora antes de Pessoa informar que “ainda existem cerca de 20% dos ingressos à disposição do público”.

E a dúvida permanece. Enquanto a assessoria de imprensa da turnê ratifica a posição de Barretto Junior, a do Municipal confirma a de Pessoa. A sensação de quem enxerga a cena é de estar diante da crônica de uma morte anunciada.

Por fim, aterroriza os bastidores dos shows de João uma notificação extrajudicial que o Grupo Tom Brasil encaminhou a todos os envolvidos na turnê. O documento, redigido pelos advogados do Vivo Rio e do HSBC Brasil, informa que, em dezembro de 2010, dois meses antes de os baianos firmarem um acordo via Claudia Faissol, João Gilberto assinou um contrato negociado por seu então produtor, Otávio Terceiro, para realizar ao menos dois shows com o grupo ao longo de 2011, um contrato que não foi rescindido.

—- É um documento extenso — mostra Gladston Tedesco, do Grupo Tom Brasil. — Além de qualificar as partes e de ter a assinatura do João, trata de ensaios, gravação de CDs, transmissão e multa rescisória, entre outros pontos. Estamos aguardando para ver o que acontece.

Tão recluso quanto o cantor, Otávio Terceiro comenta a situação:

— Não conheço esses dois (Pessoa e Barretto Junior), mas o Brasil anda sofrendo com produtores iconoclastas, mercenários, que se alimentam de cadáveres, das vítimas do assassinato cultural que eles mesmos promovem. O que eu conheço bem é a voz de João. Trabalho com ele desde 1961. Sei que ela é sensível a más vibrações, a erros de produção, que ele não faz espetáculo que não esteja 100% porque acaba somatizando — alerta o produtor.

Apesar da doença de João, da falta de patrocínio da turnê (leia na página 2), do estorno de milhares de ingressos e da coexistência de dois contratos, Pessoa e Barretto Junior se dizem tranquilos. Juram que nunca perderam uma noite de sono e reafirmam sua total confiança em Claudia, que não atendeu aos pedidos de entrevista.

— Não posso pensar que vai dar errado — diz Barretto Junior. — Iria contra tudo o que construí. Se eu e meu sócio achássemos isso, seríamos uns patetas brincando de gastar dinheiro. Nenhum de nós é milionário, e não estamos brincando de fazer show. Somos empresários, responsáveis. Vamos lutar pela imagem de nossas empresas.

Produtor não acredita no “fator João Gilberto”

Antonio Barretto Junior é um baiano de 43 anos de idade, casado, pai de três filhos, formado em Turismo. Nos últimos cinco anos, trabalha convencendo empresas a patrocinar grandes eventos de cultura popular. Gaba-se de ter alavancado R$ 14 milhões para o carnaval de Salvador de 2010 e R$ 15,5 milhões para o deste ano. Diz ter uma extensa carteira de parceiros e que se enxerga como um verdadeiro “porquinho cheio de moedas”, graças aos valores que movimenta.

Barretto Junior é sócio da OCP Comunicação, com sede em Salvador, e foi quem tentou, mas não conseguiu, convencer quase cem empresas brasileiras — públicas e privadas — a patrocinar a turnê dos 80 anos de João Gilberto.

Na quinta-feira, no Rio de Janeiro, comemorava a venda da primeiríssima quota de apoio, cuja cifra não revela, mas que admite ser muito distante do patrocínio master que tentou emplacar. Agora, com o apoio dos Correios aos shows no Rio e em São Paulo, respira um pouco mais aliviado.

— Foi uma frustração muito grande a falta de patrocinador. A gente não contava com isso. Pelo menos um... — desabafa. — E a quota não tava cara... O problema é que João competiu diretamente por verbas com Eric Clapton e todos os artistas internacionais que vieram para o Brasil de outubro para cá...

Numa autoavaliação, Barretto Junior diz que faria uma mudança na estratégia adotada para atender João:

— Programaria os shows para o primeiro semestre de 2012 para não ouvir de ninguém que não pode bancá-lo porque não está previsto no orçamento.

Ele não acredita no “fator João Gilberto” (que, segundo alguns promotores, explicaria a falta de patrocinadores). Prefere acreditar “num momento ruim” das empresas, numa “situação conjuntural”.

Diante da falta de patrocínio e da redução (ainda temporária) do número de shows, se ajeita no sofá e diz que não teme a falência.

— Desde o primeiro momento sabíamos dos riscos de lidar com João, mas, de vez em quando, a gente tem que ser jogador, apostar alto. Minha empresa começa a botar a cabeça para fora da água no Sudeste. No dia em que João subir ao palco, vão perguntar quem fez isso: seremos nós.

Segundo o baiano, que se reconhece zen, das cinco praças anunciadas como palcos da turnê (Rio, São Paulo, Brasília, Salvador e Porto Alegre), duas não lhe renderiam qualquer lucro. São justamente as que não foram remarcadas depois da sinusite do cantor: Brasília e Porto Alegre. Mas Barretto Junior nega que essa tenha sido a razão da devolução dos ingressos.

Mesmo sem nunca ter visto ou falado com João Gilberto, o produtor atesta que ele é um homem simples. Talvez porque os dois tenham raízes na cidade baiana de Juazeiro. Segundo Barretto Junior, João frequentava a casa de sua avó materna e conhece Leinha, sua mãe.

Ele ressalta ainda que confia nos interlocutores de João, o advogado Aloisio Salazar e a produtora Claudia Faissol. Por via das dúvidas, lembra:

— Nunca pensamos na possibilidade de processar João. Mas ele tem um legado de músicas, tem o processo contra a EMI. Isso vai chegar a algum lugar.

Há décadas João move uma ação milionária contra a gravadora por ela ter remasterizado e alterado a ordem das músicas de seus primeiros LPs na caixa “João Gilberto — O mito”.