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VÍDEO DO DIA

"Todo mundo quer saber com quem você se deita"



Em entrevista recente, você se autodefiniu como “um letrista talentoso, habilidoso e improvável”. Não é muita pretensão vindo de alguém que escreveu “o amor tem sabor para quem bebe a sua água”?
Nossa, engraçado. Essa sua pergunta denota um certo preconceito, como se, por ser pop, devesse não ter qualidade.
Eu estou te colocando uma questão.
E eu estou respondendo e colocando em questão a sua questão. Por que eu tenho de responder isso achando que a minha música mais conhecida teria maior ausência de qualidade poética do que outras que são obscuras? Isso é preconceito. Sabe o que é? Uma bosta de um preconceito. A música Do Seu Lado é boa pra caralho. E foi melhorada muito por uma banda que também é tratada de uma maneira injusta, como se fosse pop e supérflua, que é o Jota Quest. Acho essa frase linda. Tão boa quanto todas as outras. A crítica musical trata daquilo que faz sucesso como se fosse algo apenas procurando lucro. É uma inversão de valores completa tratar uma música que faz sucesso como algo sem qualidade. Justamente vindo de quem está sendo pago e deveria se profissionalizar e [muito exaltado] produzir análise e crítica musical com qualidade! E daí fica essa disputa, esse braço de ferro. Um monte de jornalistas cuzões, despreparados, gente que gostaria de ser músico e ter uma bandinha de sucesso falando mal de quem faz sucesso! Num jornal popular! Qual é o problema da minha música ter feito sucesso? Você acha que Do Seu Lado é poeticamente inferior a quê? Que outra música que você conhece? Puta que pariu!
A crítica musical te irrita?
[Enfático.] Pra caralho! A crítica musical é uma bosta. Aliás, não existe. Crítica musical no Brasil é ir com a onda de fofoca. É exatamente o lugar onde tem um monte de caras que na verdade gostariam de subir ao palco e só escrevem bobagem. Bicho, é uma bosta.
Você se lembra de alguma coisa em particular que o tenha aborrecido?
Lembro que o Pedro Alexandre Sanches, que é um cara de quem eu gosto, quando escrevia na Folha de S.Paulo, fez uma crítica sobre a turnê do disco Acústico MTV [1997] dos Titãs que dizia que a gente estava ali para pagar conta de luz. Insinuava que o nosso disco era só pra ganhar dinheiro. Há um pressuposto de que a conta de luz de um artista é paga pelo governo, pelo céu, pela luz divina. Não! Qual é o problema de querer ganhar dinheiro? De precisar ganhar dinheiro? Aliás, isso nunca poderia ser substrato, o assunto de uma matéria, a não ser que ela tivesse a odiosa determinação de causar uma polêmica movida por um editorial de um caderno cultural de um jornal que se pretende ser o mais lido do Brasil. Um ninho de cobras! Ah, caralho! Acho que a crítica musical no Brasil é ridícula. Medíocre. Nunca a primeira página de um caderno vendeu um disco a mais. Eu sei disso.

Você teve uma captação de recursos aprovada pela Lei Rouanet neste ano para fazer dez shows no interior de São Paulo. Houve uma discussão no começo do ano sobre o blog da Maria Bethânia em função de ser dinheiro público…
Público, meu amigo? Dinheiro público é arrecadação, cazzo! Puta merda…
Não é legítimo que se tenha uma fiscalização, ainda que…
Óbvio que sim! A gente espera fiscalização geral. A responsabilidade sobre a arrecadação e aquilo que ela significa, ou a forma que isso vai ser distribuído, tem que ter alguém fiscalizando, você tem toda a razão. Dinheiro público… Eu contribuo com dinheiro público pagando imposto pra caralho. E o que tem de público nisso? Nada. É uma merda. O Brasil cobra muito imposto e retorna muito pouco em contribuição para aqueles que pagam. E então, beleza, a Lei Rouanet está errada, está tudo errado. Toda a forma de arrecadação está errada. Principalmente a quantidade de dinheiro arrecadado mal distribuído. E não discutido. É muito mais importante discutir a Previdência do que a Lei Rouanet
se estamos falando de dinheiro público! [Levanta-se e se exalta.] Quanto é o déficit que tem nessa merda? E por que isso não está em voga? Está respondida a questão?
Sim, e é minha função questionar sobre isso.
Bicho, estamos nas nossas funções.
Você teve duas doenças complicadas na família. Como isso afetou sua vida?
Meu pai e minha mãe se casaram muito cedo, e com 22 anos minha mãe já tinha três filhos, o José Carlos, a Maria Cecília e o José Luís, o Zeco. E o Zeco teve meningite e, por causa do remédio que ele teve que tomar, ficou surdo. Cinco anos depois eu nasci. Três anos depois nasceu a Lulu, Maria Luiza, que também teve meningite, que evoluiu para encefalite com seis meses, e mais tarde paralisia cerebral. Um dos pediatras disse que ela ia morrer, que não tinha o que fazer. Esses dois episódios da meningite deixaram sequelas, e eu nasci no meio dos dois. Quando nasci, o Zeco já estava surdo. E quando a Lulu nasceu eu tinha 3 anos, não me lembro. Tinha nascido um bebê, o que para qualquer criança já seria motivo de ciúme, e eu não sabia que não podia ter ciúme porque a minha irmã tava morrendo! [Chora.] Eu tinha 3 anos, cara.
Você teve dificuldade de aceitar isso?
Aí já exigiria um pensamento a respeito. Porque eu tenho muita raiva. A minha falta de religiosidade, de espiritualidade, meu ceticismo, até minha intolerância, está tudo inegavelmente associado a esse histórico. Talvez a minha raiva não tenha nada a ver com a história deles, tenha a ver com um sentimento da minha infância roubada, saca? Porque desde sempre, desde muito cedo eu não podia fazer barulho em casa. Não tinha nem sentido eu dar preocupação pros meus pais porque eles tinham coisas muito mais sérias pra resolver. E eu nunca pensei sobre isso. Hoje vejo que eu sou meio desparafusado, tenho uma vontade de anarquizar que um cara na minha idade já não deveria ter. Eu sou músico, e meu irmão não ouve. E ele vai aos meus shows. Não vamos entrar em lamúrias porque não é o que eu queria falar. Eu não consigo. Eu não acredito em Deus. Eu não peço a Deus…
Não gosta de padre, não gosta de madre…
É. Mas hoje até acho graça. Gosto de ouvir padre falar e tudo mais. Já tive vontade de ser padre quando era pequeno.
A sério?
Tem uma história engraçada. A minha família, por circunstâncias da época, se aproximou muito dos dominicanos nos anos 1960. E tinha o frei Luís, que depois saiu da igreja. Era muito amigo do papai e da mamãe. Tinha um negócio chamado Sociedade de Assistência à Criança, que, uma vez por mês, as mulheres de casais de amigos faziam enxoval, tricô, se juntavam e iam distribuir para as crianças pobres na rua. E a reunião mensal era em casa porque minha mãe não podia sair por causa da Lulu. Essa noite era um tesão.
Sempre na sua casa?
Era sempre na minha casa. E era um tesão porque era uma puta festa, um puta jantar, aquela coisa linda. Eu adorava, queria ficar acordado até mais tarde. Meu apelido era Zumbi porque não gostava de dormir. Até hoje não gosto. Nessas noites vinham esses dois padres, o frei Luís e o Paulo César, que eram dominicanos. O Paulo César tinha uma puta barba e era mais novo que o frei Luís. Eu percebia que todas as mulheres achavam ele lindo. Eu mesmo achava ele bonitão. E tocava bem violão, tinha uma puta voz. Lembro que ele gostava muito de mim, era supergentil…
Você tinha quantos anos?
Uns 7, 8. Lembro que o Paulo César chegava em casa e a primeira coisa que ele fazia era falar comigo, ou pelo menos na minha cabeça era isso, e eu ia mostrar os meus desenhos. Eu adorava ele, adorava tudo aquilo. E até um dia que ele falou: “Vou levar você pra morar num convento comigo”. Nossa, eu entrei em pânico. Quando ele falou isso eu surtei e sumi. Eu morria de medo de ele me roubar e me levar pra um convento. E depois lembro que eu pensava: “Para que tanto medo?” Alguma coisa me atraía nessa coisa de padre, a batina…
Você gostava deles, então?
Eu gostava pra caramba dos dois. E, bicho, criança fareja tudo. Essa coisa de sexualidade, sabe? Eles não iam de batina lá em casa, mas eu sabia. Via os padres com roupas que pareciam saias. Achava tudo aquilo muito estranho e ao mesmo tempo muito atraente.
Mas você estranhava a relação deles com você?
Não. Frei Luís era um homem muito dócil e mais velho. O Paulo César, por ser jovem, por ser muito bonito, por cantar, e por me dar aquela atenção, provavelmente despertou em mim um tipo de relação que bagunçou tudo o que já era bagunçado na minha cabeça. Porque ao mesmo tempo eu sabia que todas as mulheres achavam graça nele, mas ele era o tipo do homem proibido. Ele era padre.
Toda essa história dos padres vai, mais tarde, desembocar em Igreja, a música?
Vai. Por isso que hoje eu tenho uma relação meio paternal com a música. Na época [1986] tinham censurado o filme Je Vous Salue Marie, do [diretor de cinema francês Jean-Luc] Godard, e o Roberto Carlos, que é um dos meus ídolos, escreveu um artigo apoiando a censura. A minha réplica respeitosa foi a música, uma manifestação daquilo que nós, Titãs, estávamos vivendo, a própria prisão do Arnaldo [Antunes] como traficante, que era um absurdo, e vivendo as consequências na pele. A gente não tocava na televisão, o único cara que nos recebeu foi o Fausto Silva, e eu sou muito grato a ele. O Arnaldo foi preso e exposto como um bicho de zoológico. A gente se fodeu, todos os shows
cancelados, estávamos na merda, e tudo naquele disco [Cabeça Dinossauro] era espontâneo porque eram oito caras tentando salvar a própria pele. Mas ao mesmo tempo não era uma música para completar o álbum de figurinhas, “já falamos mal disso, agora vamos falar mal da Igreja”. Tanto que, quando mostrei para a banda, o Arnaldo não queria cantar, o Paulo [Miklos] não queria gravar. Eles não concordavam com aquilo.
Arnaldo foi preso com heroína. Em entrevista à PLAYBOY, Branco Mello disse que a droga foi uma onda breve de parte da banda. Você estava na turma que experimentou heroína?
Não, nessa eu não estava. Sabia o que estava rolando, ali todo mundo sabia de tudo, mas nessa eu não estava. Eu estive em todas as outras.
Teve medo ou não curtiu?
Eu comecei a fumar maconha muito cedo e muito cedo tive uma relação de paranoia com a maconha. Com 19 anos eu vi que não dava. Parei, fui obrigado a parar porque eu amava fumar maconha, mas fui ficando paranoico, perdendo o prazer naquilo. E durante muito tempo tive medo de droga. Essa época, 1986, eu tinha 23 anos e estava muito sem barato com droga. A que eu gostava, que era a maconha, não dava. Aí o pessoal entrou, mas eu não estava.
E a cocaína, já existia?
A cocaína existe desde que o mundo é mundo… Existia, mas acho que ela pegou forte mais para a frente. A gente morava em São Paulo, e a história do pó estava muito difundida no Rio. Eu não estava nessa onda, não. Só depois a cocaína ficou supercomum no meio da música. E eu usei bastante.
Na sua vida, o que teve um papel mais destruidor, o álcool ou a cocaína?
Bicho, entorpecente é tudo igual: cerveja, whisky, cocaína, barbitúrico, antidepressivo, cigarro, punheta, religião. A cocaína é muito devastadora, mas ao mesmo tempo é curioso: ela é um tipo de dependência de outra natureza. Minha família e a minha linhagem masculina sempre exaltaram o álcool. Meu avô era o camarada que tomava três copos cheios de gelo de whisky logo pela manhã, e todo Natal, toda festa, todo encontro era álcool. Eu comecei a beber cedo. Acho que não tem como fugir disso, faz parte. E eu gosto do efeito inebriante.
Você ainda bebe?
Bebo, gosto de beber. Gosto de beber vodka, vinho, cerveja. Eu gosto de whisky. Gosto de scotch, não gosto de Bourbon ou de milho ou de malte. Não sou muito de drinks. Não gosto de nada que tenha açúcar. Detesto. Aprendi desde muito cedo que quando tem açúcar, ou açúcar com álcool, aquilo causa em mim um tipo de reação desagradável.
Com todos os outros entorpecentes, você parou?
Eu não vou responder isso.
Já que você citou essa coisa da sexualidade na história dos padres, há uma série de boatos sobre a sua sexualidade, em particular sobre a sua participação em orgias e relações homossexuais. Que você já deve ter ouvido, certo?
Bicho, boatos há milhares, de todas as ordens. Que eu sou gay, que cheiro cocaína. Já devo ter até matado uma pessoa. As minhas declarações, a forma como eu sou, como eu vivo e a minha própria profissão, tudo isso é um paraíso para a boataria. Um boato muito forte que rolou, e que feriu pessoas importantes da minha vida, foi que a Cássia Eller estava grávida de um filho meu. É claro que isso é sentido porque eu tenho uma vida, digamos, excêntrica. Mas o que eu acho mais curioso nesses boatos de ordem sexual, ou homossexual, é que o que eu penso está tudo escrito nas letras, da forma como eu gostaria de dizer. A minha vida pessoal é de meu interesse, e eu tenho cada vez mais cuidado de como vou tratar disso para não magoar os meus filhos. Algumas coisas eu não vou dizer a você aqui, e não é porque eu não queira dizer a você nem mesmo porque eu não possa tratar disso, mas eu tenho filhos pequenos e as pessoas podem falar coisas para eles que eu mesmo deveria falar na hora certa.
Mas essa questão da boataria, o que eu queria esclarecer com você é que…
Mas qual é o ponto, que eu sou bissexual?
Que teria tido relações homossexuais.
A quem interessa isso? Eu gosto de gente, me apaixono por pessoas, o que faço com elas não deve interessar a ninguém. Leiam minhas letras, está tudo escrito lá. Quando você está amando alguém, você não sabe se é homem ou se é mulher e tanto faz quem enfia o que onde. É disso que eu trato, da dissolução de gêneros, de classes, de fronteiras, é a forma como eu vejo o mundo, e também no sexo.
Você percebe que a sua não resposta é, de forma até clara, uma resposta?
Você pode concluir o que quiser. Só quero que você publique o que eu disse, e não o que você concluiu.
Os Titãs são parte fundamental da sua vida e hoje se resumem a quatro caras. Você acha que a banda já deveria ter acabado?
Eles ainda fazem sentido?  Óbvio que não deveria ter acabado! Essa é uma ideia muito louca, de que a banda existe para cumprir expectativas alheias. Não! A gente faz música para sobreviver. E eu, depois que saí dos Titãs, nunca mais ouvi um disco, e não é porque eu tenho raiva. É porque eu não tenho condições. Eu não ouço. Eu sempre me confundi com essa espécie de cenário rock nacional. Eu não ouço, não me interesso. Eu não gosto. A minha relação com música não passa por aquilo que as pessoas acham que é a função importante da música ou pelo fato de eu ser músico eu deveria falar sobre música. Nada disso tem sentido.
Você teve algum medo de sua carreira não decolar em 2002, quando saiu da banda?
É engraçado, em geral me citam como ex-Titã mais como um evento jocoso do que como um legado… Claro que tive. Medo real. A gente tocava para dezenas de milhares de pessoas, e eu estava a fim de ver qual era o meu tamanho, recomeçar. Não só eu saí dos Titãs como logo em seguida eu me separei e fui morar de novo de aluguel e fazer shows em churrascaria. E notem como é tosco tocar em churrascaria. Mas eu fiz. Topei, passei, vivi…
Os sete Titãs vão se reunir em um palco novamente no ano que vem para comemorar os 30 anos da banda. Se for muito bom para você, você pode voltar para a banda?
Em princípio o que temos é uma vontade de comemorar os 30 anos da banda, e os termos que nós imaginamos comemorar é fazer coisa de cinco shows, até porque eles têm a vida deles, eu tenho a minha. Que fique bem claro: estamos comemorando um aniversário, a gente não vai casar de novo.
Vocês conviveram com três caras que foram os maiores símbolos da indústria fonográfica, o empresário Miguel Poladian, o produtor Liminha e o presidente da gravadora Warner, André Midani. Qual é a sua lembrança deles?
O Poladian, que era nosso empresário, e o André são homens que sabem mexer com dinheiro. Aprendi muita coisa com eles e prefiro lembrar das coisas legais que vivi. São dois personagens muito interessantes. Havia entre eles muita admiração e muito ódio. Eu não sou um homem de negócios e sei que para negociar é preciso ganhar em cima do outro, e ganhar em cima do outro talvez signifique trapacear, fazer com que o outro perca, e eu não gosto disso. O Liminha é um personagem diferente, ele é músico, produtor. Ele tem um gênio do cão, já nos desentendemos, então não vou revelar aqui nada que ele mesmo não saiba. No entanto, os discos que fizemos com ele são geniais.
Esses caras tinham brecha para entrar no trabalho da banda?
Nunca. Nunca ninguém entrou, nenhum produtor artístico, nenhum presidente, jamais. Ninguém nunca mandou a gente fazer nada.
Você está pela primeira vez em sua vida profissional sem gravadora. De alguma forma, é um alívio ver a velha indústria fonográfica ruir?
Eu não entendo o alívio. Sempre estive ali porque eu quis. Eu tinha, com a minha gravadora, termos até melhores hoje em termos de royalties do que tinha 15 anos atrás. A diferença é que há 15 anos o disco Acústico MTV vendeu 15 milhões de cópias, e meu último disco [Bailão do Ruivão, de 2010] vendeu 18 mil cópias. Então eu não acho que seja uma maravilha [o contexto de hoje]. Seria maluco se achasse. Eu não sou um apologista da era da internet.
Mas não era uma indústria que pagava bônus milionários a seus presidentes, que dava carro importado à Simone quando ela renovava contrato?
Bicho, pergunta para a Simone o que ela achava. Eu nunca ganhei carro importado. Nem sabia quanto ganhava o André Midani. Houve, sim, um excesso, mas a tecnologia para gravar também era muito mais cara. Claro que eu não sou um alienado, sei que nos anos 1980 houve um esbanjamento, as festas, e todo o dinheiro que era obtido, a forma como ele era reintrojetado numa coisa meio orgiástica.
Qual é a primeira lembrança que você tem de excessos de indústria com vocês?
Pô, eu gosto de excessos! [Risos.] É que você está querendo ver o lado do desperdício e da corrupção, alguma coisa nesse sentido… Eu vejo no bom sentido. Quando a gente fez a primeira audição do Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas [1987], no [estúdio] Nas Nuvens, todo mundo foi, um monte de músicos, um tesão. Todo mundo ia lá curtir. Esse é o meu excesso, de gente, de música, e de drogas também, que rolava… Um excesso condizente com a excitação da minha juventude.
Qual foi a coisa mais luxuosa a que vocês tiveram direito nessa época?
A gente se apresentou no Festival de Montreux, em 1987, na noite de rock, e o que a gente achou que ia ser incrível foi uma bosta, uma cagada. Não tinha público, o amplificador do Liminha quebrou… Mas o nosso grande excesso ali foi ter ficado três semanas ensaiando em Londres. Que delícia de excesso…
Mas, de uma forma ou de outra, vocês sempre estiveram no centro dessa indústria, certo?
Estávamos, e eu também me diverti muito. Só não enchi os bolsos com isso. Eu vivi um momento de delírio, e foi meio como o império de Roma que cai. Quando entramos na era do CD, eles ficaram tão enlouquecidos com a pirataria que não se deram conta da internet. Então o inimigo era a máfia chinesa. O abismo da indústria fonográfica passa por não ter premeditado e tratado da legislação da venda de música. Um erro de arrogância, de soberba. Eu vi tudo isso, e óbvio que nesse ponto eu falo: se foderam. Mas eu, que sempre tive uma relação de dentro, lamento que isso tenha arruinado algo que era caro, no sentido de estimado, pelo que eu vivi e pelas grandes experiências que eu tive. Não vou ser cínico e hipócrita de dizer que tudo aquilo era um nojo. De jeito nenhum.