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VÍDEO DO DIA

Geni e o Zepelim - Chico Buarque

Esta canção está para a música popular (mundial) como as cantatas de Bach estão para a música erudita (universal): eterno monumento. Letra e arranjo fazem dessa melodia repetitiva um verdadeiro achado revolucionário.

É de se perguntar: em que ponto da história nossa música derrapou pra debaixo do tapete criativo ao ponto de fazer com que sons e ações banais sejam tidas como a luz no fim do túnel?

Vamos nos deliciar dela pois não sabemos quando haverá coisa assim outra vez por aí:



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De tudo que é nego torto
Do mangue, do cais, do porto
Ela já foi namorada.

O seu corpo é dos errantes,
Dos cegos, dos retirantes;
É de quem não tem mais nada.

Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina,
Atrás do tanque. No mato.

É a rainha dos detentos,
Das loucas, dos lazarentos,
Dos moleques do internato.

E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir.

Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir:

"Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!"

Um dia surgiu brilhante
Entre as nuvens, flutuante,
Um enorme zepelim.

Pairou sobre os edifícios,
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim.

A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia,

Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo: "Mudei de idéia!

Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
Resolvi tudo explodir

Mas posso evitar o drama
Se aquela formosa dama
Esta noite me servir".

Essa dama era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar;
Ela é boa de cuspir;
Ela dá pra qualquer um;
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela,
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro.

O guerreiro tão vistoso,
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro.

Acontece que a donzela
(E isso era segredo dela),
Também tinha seus caprichos

E ao deitar com homem tão nobre,
Tão cheirando a brilho e a cobre,
Preferia amar com os bichos.

Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão:

O prefeito de joelhos,
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão.

Vai com ele, vai Geni!
Vai com ele, vai Geni!
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos,
Tão sinceros, tão sentidos,
Que ela dominou seu asco.

Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco.

Ele fez tanta sujeira,
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado

E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado.

Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir,

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir:

"Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

***

É de chorar saber que já não há ouvidos para esse tipo de genialidade.
Mil vivas ao mestre Chico Buarque.

E hoje: o que explode, quase sempre, é o que nos eclode!


Ama a vida e segue!
@galldino