Páginas

VÍDEO DO DIA

Itzhak Perlman - hoje, 23 de novembro, na Sala São Paulo.



O israelense Itzhak Perlman é um dos maiores violinistas do mundo. Paraplégico desde os 4 anos, em razão da poliomielite, ele também é porta-voz dos deficientes físicos. Perlman toca hoje em São Paulo às 21h00 pela Sociedade de Cultura Artística. De R$ 110,00 a R$ 250,00
Informações e venda: 55 11 3258 3344.

Em entrevista ao repórter Sérgio Martins (revista Veja), falou sobre as dificuldades que enfrentou, sobre judaísmo e sobre sua iniciativa de se tornar maestro.




O SENHOR FOI UMA CRIANÇA PRODÍGIO. FAZER SUCESSO MUITO CEDO NA MÚSICA ERUDITA É BOM OU RUIM?
Criança prodígio, eu? Crianças prodígios são meninos de 9 ou 10 anos de idade que tocam como se tivessem 20. Eu era um rapazote de 13 e tocava como se tivesse 13 – só que demonstrava um grande potencial. Foi bom. Não saltei nenhuma etapa e pude aproveitar a vida. Completei meus estudos e hoje tenho uma carreira que me alegra.


QUAL O PRINCIPAL PROBLEMA DE UM PRODÍGIO DA MÚSICA?
A enorme pressão. Dos pais, que querem que ele seja perfeito, dos professores, dele mesmo. Dou aulas de música e fico consternado quando vejo meninos de 14 ou 15 anos reclamando que ainda não têm empresário. Eles se esquecem de viver.


POR SER DEFICIENTE FÍSICO, O SENHOR ENFRENTOU ALGUM TIPO DE DIFICULDADE NO MEIO MUSICAL?
No início da carreira, tive de lidar com o preconceito. Muitos artigos em jornais diziam que eu era bom, "apesar de deficiente". Mas o que importa é a música. Quando começo a tocar, ninguém mais liga se posso andar ou não.


O SENHOR É MUITO ATIVO AO CHAMAR ATENÇÃO PARA AS NECESSIDADES DOS DEFICIENTES NO ACESSO A LOCAIS PÚBLICOS OU NOS TRANSPORTES. PERCEBE MELHORAS NESSE CAMPO?
Sou deficiente físico desde os 4 anos de idade e moro em Nova York, cidade repleta de degraus e armadilhas. Tornei-me um expert no assunto da acessibilidade. Sobretudo quando se inicia a construção de um novo teatro ou sala de concertos, sou bastante consultado por arquitetos e engenheiros. Creio que há, sim, mais conscientização.


ALÉM DA ARQUITETURA DAS CIDADES, QUE OUTROS PROBLEMAS O SENHOR ENFRENTA POR SER DEFICIENTE?
Sofro em aeroportos. Muitos não têm cadeiras de rodas suficientes. Quando há, estão quebradas ou têm apenas um descanso para as pernas. Paris é uma cidade que já me fez sofrer muito. As cadeiras de rodas são bastante apertadas. Se você está com alguns quilos a mais, tem de se torcer todo.


POR QUE O SENHOR REJEITOU UM CONVITE PARA PARTICIPAR DE UM DOCUMENTÁRIO SOBRE AUSCHWITZ RECENTEMENTE?
Recusei por motivos profissionais. Tinha outros compromissos no dia do recital. Porém, não sei se gostaria de ir a Auschwitz. Minha filha visitou o lugar e voltou traumatizada. Conheço bem demais a história do holocausto para entrar serenamente num local de memória tão sombria.


COMO JUDEU, O SENHOR VIU ALGUM PROBLEMA NO FATO DE O MAESTRO DANIEL BARENBOIM REGER UMA PEÇA DE WAGNER, COMPOSITOR ALEMÃO IDENTIFICADO COM O NAZISMO, EM ISRAEL?
O problema não é a música de Wagner, mas as lembranças ruins que ela carrega. Tocar Wagner é trazer à tona recordações de um tempo de dor e sofrimento. A música dele não poderá ser executada em Israel enquanto houver naquela terra sobreviventes do holocausto.


DEPOIS DE CONSAGRADO COMO VIOLINISTA, O SENHOR DECIDIU SE DEDICAR À REGÊNCIA. O QUE O SEDUZ NO CARGO?
Comecei a reger faz onze anos, a pedido da minha mulher. Ela tem uma escola de música e pediu que eu comandasse a execução de algumas peças clássicas para os estudantes. Regi, gostei e decidi me aprimorar. Mas é uma tolice achar que o regente é uma figura poderosa. O verdadeiro poder está com os músicos de uma orquestra. Se eles quiserem, podem nos deixar em maus lençóis.

Ama a vida e segue!
@galldino