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VÍDEO DO DIA

Pare tudo! Silêncio. Ouça!




(Se sua net for lenta vá até o final do texto e deixe o vídeo carregando).
Já notaram a incapacidade de ouvir no público brasileiro?

Freqüentemente vejo pessoas cochichando, falando e até gritando (aos berros mesmo) em apresentações musicais.


Outro dia, até um vocalista de uma banda que adora a interatividade coletiva se irritou com os insistentes gritos de alguém a beira do palco.

Note que em apresentações de bandas de Pop/Rock o som é ensurdecedor, os músicos usam fones nos ouvidos e o público é convidado a cantar em coro.

Quer dizer: pra alguém da platéia, nesses casos, incomodar quem está no palco a coisa realmente tem que ser "sufocante".

Música pedante!

Vamos para o caso de João Gilberto: tido como arrogante, chato e desagradável por muitos nativos, é adorado pelo mundo. A Razão?  Esta: ele faz música de câmara íntima. Aquele tipo de coisa em que o ouvinte precisa ser somente e justamente isso: ouvinte.

W.A.Mozart era considerado também um cara temperamental. Certa vez foi tocar piano para uma nobre. Ela só sabia falar, falar e falar. Os dedos do gênio, então, estavam rígidos e doloridos do terrível frio europeu e ele tocava com muita dificuldade.

De repente, o marido da duquesa, um verdadeiro apreciador de música, entrou e sentou-se em silêncio para ouvir o piano de Mozart: eis que seus dedos se aqueceram e foram precisos, ágeis e confortáveis como de costume. A atenção seria, assim, no mínimo, um gentil combustível pra quem toca.

O público é parte fundamental da música.

A "fúria surda" que vem desprezando o som pode ser um reflexo da cultura festiva que temos. Também pode ser a percepção equivocada de que música é só aquilo que toca nas rádios e nas TVs; aquelas dos astros e decibéis lá nas alturas.

Sabemos que, assim como os aplausos no século XIX, a gritaria histérica no século XX se consagrou dentro das platéias. Mas, fora desses hábitos bem aceitáveis, pode ser apenas falta de educação um certo tipo "desatento" de quase desprezo que é adotado em recitais, concertos, shows e etc.

Há muitas funções.

Lógico que ninguém vai às ruas de Salvador em fevereiro, por exemplo, pra apreciar (APRECIAR) música. Ali todos queremos folia, gritaria, beijaria e "etceteria".

Aquela música precisa cumprir sua função: dar o clima, o tom e a vibe exatos para a festa carnavalesca. Os trios elétricos fazem muito bem isso, com competência admirável.

Assim, é bom gritar nas apresentações de Pop/Rock (com algum limite) ou no carnaval (quase sem limite). Como dizem: faz parte. Mas há casos bem distintos.

O problema, na verdade, é que a grande e imensa maioria das pessoas não aprendeu a se relacionar com certas funções que a música possui. A de culto estético, em especial. Aliás, há também música sem função alguma: ela por ela.

Uma praga?

Eu vi muitos alunos no curso de música na faculdade irritados com as aulas de apreciação musical. Sabe o que se faz nessas aulas? OUVI-SE, basicamente. Eles não gostavam ou não tinham paciência. Mas seriam músicos. Bacharéis. Você deve pensar como eu: se até eles são assim...

Friedrich Nietzsche (sempre tenho que consultar a grafia desse nome…) cunhou aquela frase célebre: "a vida sem música seria um erro…", algo assim. Mas de qual música ele falava?

Levando em consideração seus textos sobre o assunto, podemos deduzir que não se tratava de uma "música qualquer". Nem de qualquer música.

Vou tentar, do meu jeito, eliminado gostos e tribos, adaptar essa frase pra minha própria experiência: a vida sem apreciação, contemplação e meditação musicais é um pesadelo. Com isso, suspeito que há muita gente vivendo longos pesadelos por aí.

Amo música e sigo!

Pra mim a musa das musas, dentro do que nos distingue dos outros animais, é a nossa mais encantadora invenção. Quero degustar a força do som, fazendo meu silêncio.

Por favor… PARE TUDO!

Agora veja e principalmente ouça:

Pinchas Zuckerman, Daniel Barenboim e Jaqueline du Pré.
L.V.Beethoven.




Ama a vida e segue!
@galldino