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VÍDEO DO DIA

O metalúrgico, a administradora, o economista e o violinista

"Foram as suas ideias que permitiram a um metalúrgico chegar ao governo. Graças às suas obras, professor, descobriu-se que os pobres têm uma pedagogia própria; que existem culturas paralelas, distintas e socialmente complementares. Por este novo Brasil, muito obrigado professor Paulo Freire." 
( Frei Beto - militante de movimentos sociais).

A história a seguir é escrita de cabeça. Não haverá datas e números oficiais. A verdade é a verdade que vivi de verdade: uma reflexão pessoal sobre os meus porquês de ter votado em Luiz Inácio Lula da Silva, e de votar em Dilma Rousseff e em Aluísio Mercadante.

Já me chamaram de vendido, de burro, de desinformado... E tudo por causa da minha escolha política assumida e franca. Coisa que a democracia nos garante.

Foi difícil conseguir essa garantia.


No final da década de 1980 eu morava no Rio de Janeiro e convivia com um cara bem politizado: Claudemiro Gomes Santos, meu cunhado. Era a época em que eu começava a me interessar pelo Brasil. Até ali me via, como muitas pessoas, sem dar bola pra identidade da nação. Tinha quinze anos, trabalhava como cobrador de ônibus. Da Central do Brasil até São Conrado, durante as oito horas de trabalho, devorava o jornal "O Dia". Mas quem me falou de um tal Silva de forma nítida não foram os jornais. Foi, antes, aquele amigo, Gomes.

Ele me contou de um nordestino torneiro mecânico que passou a exigir melhores condições de vida para os operários. Me identifiquei de imediato, não apenas pelos meus dois irmãos metalúrgicos. O que mais me impressionou realmente foi a coragem desse cara. Afinal, estávamos numa ditadura militar, época na qual cada um deveria ficar "na sua". Era famosa a expressão "você sabe com quem está falando?". Havia evidências de assassinatos e de valas comuns "extra oficiais". Um tio meu, por exemplo, fora morto dentro de um quartel e nunca apuraram o caso: "assunto interno".

Passei a querer saber mais sobre aquele Lula, sujeito barbudo e de voz estridente. Fui seguindo sua trajetória. Ao longo dos anos ele seria figura importante nos debates, na consolidação da oposição, nos
processos eleitorais a partir das "Diretas Já! "( uma reivindicação que só não teve o apoio da TV), na constituinte, no alerta a sociedade sobre a corrupção (dos "300 picaretas") e etc. Lula sempre esteve lá: ao lado da democracia e representando o povo.

Eu sou do povo!

Em 1989 eu completava 18 anos. Haveria a primeira eleição para presidente após longos anos e eu deveria votar. Mas, confesso, a obrigatoriedade me desagradava: saíamos de uma ditadura e queríamos liberdade. Voto consciente. Pensei em não comparecer, como protesto. Mas Lula se candidatou ao cargo de presidente da república.

De todas as figuras políticas do país (boa parte "filhotes" da repressão militar) havia três candidatos à presidência que me inspiravam confiança: Leonel Brizola, recém chegado do exílio, e Mário Covas, com seu discurso claro, eram dois deles. Mas Lula era quem eu conhecia melhor. Foi quando ele se candidatou por um pequeno partido, o PT, que me decidi, de forma convicta em votar. Seguiria o processo pra achar o melhor dentre esses.

Na televisão e nos jornais, me pareceu, não deram muita bola pra Lula: era uma coisa exótica. O Brasil fora sempre dirigido pelos Senhores Doutores ou Generais. Mas o de fala informal cresceu nas pesquisas e passou a assustar os donos do poder. Mário Amato, um "general" da indústria paulista, foi o caso mais chocante pra mim: afirmou que, caso Lula fosse eleito, milhares de empresas fugiriam do nosso país. Uma escancarada ameaça do capital.

Porém, artistas que (ainda) apareciam na mídia, como Chico Buarque e Djavan, apoiaram publicamente o candidato mais genuíno da população até então historicamente fora das decisões políticas.

Não foi o bastante.

Dali em diante, surgiu uma infinidade de denúncias, acusações e mitos (até então desconhecidos) contra o antes inexpressivo retirante: despreparado, analfabeto, comunista-comedor-de-crianças, mal marido,
péssimo pai...

Derrotado, tudo sumiria do noticiário após as eleições como numa incrível mágica. Nenhum veículo de comunicação, no entanto, se retrataria das acusações que ficaram sem provas e foram, assim,
rechaçadas na justiça. Em todas as eleições seguintes seria o mesmo.

Lula iria, então, se explicando eternamente e provando a própria inocência repetidas vezes aos eleitores. Um avesso do direito mais primário, já que se diz: "somos inocentes até que provem o contrário".
Mas não havia saída, afinal, aquelas eram as firulas do "jogo político". Fumaça sobre o predileto das massas.

Eu vi!

Um dia, logo no início do processo eleitoral, peguei no consultório do dentista uma "Veja" (será que ainda assinam...?). Havia pequena nota em um canto insignificante mas visível o suficiente pra me chamar atenção: "Collor de Mello - o caçador de Marajás". Dessa frase eu conhecia todas as letras, porém, juntando-as eu só conseguia identificar o sentido de "caçador", além do artigo e das preposições.

Ao longo da campanha, todavia, a imprensa iria me "ensinar" o que queria dizer Marajá (lembro bem do jornalismo da Globo dando longas "aulas" sobre este neologismo) e, com mais carinho e atenção, iria tentar me convencer, inclusive através de closes e edições favoráveis, a razão pela qual o nome "Collor de Mello" seria a salvação contra o tal "sapo barbudo" que mal sabia falar.

Estava erguida a provável maior fraude da história de nossa recente democracia. Dessa vez, como construtora e demolidora da própria "brincadeira", a TV foi fundamental.

Essa parte todos conhecem bem. Ficou até meio lendária.

Collor foi eleito. Mas caiu e ficou oito anos inelegível. Virou quase um sinônimo: toda vez que se fala em corrupção, alguém o cita. Eleito Senador, hoje é candidato ao Governo de Alagoas e faz coro junto aos que querem uma migalha da atual popularidade (inigualável) de Lula, dizendo: "este foi o melhor governo da história". Por isso, alguns incautos tentam associar, de forma infeliz, Lula à Collor.

Uma prova de que isso é um erro: José Serra usou a imagem de Lula em sua atual campanha e se vê obrigado a reconhecer os avanços do governo federal. Serra seria tal qual Lula, ou vice-versa? Não! Collor, além de ter pago sua pena, foi eleito pelo voto direto. Logo, está na política legitimamente. Pode apoiar quem lhe aprouver. Senador, com certeza, tem representatividade em seu Estado. Logo, é um apoio válido. José Serra, por sua parte, não tem Collor, usa então Roberto Jeferson: única figura a assumir ter participado do esquema do "mensalão". Está no "limbo" político ainda, mas, mesmo assim, é base de apoio pra candidatura do PSDB.

Parece horrível, eu sei. Mas se não for assim seria como... Degolaríamos nossos desafetos? Já fizeram isso aqui, não esqueçamos. Melhor a democracia, mesmo com essas "pequenas aberrações".

Provado!

Certa vez, numa conversa sobre a disputa eleitoral que teria Lula X FHC, já em 1992, me lembro de ter perguntado pra faxineira da loja na qual eu trabalhava de vendedor de instrumentos musicais qual o motivo de sua escolha.

Ela:
- ... Como vô votá num cara que num sabe lê? Num sabe nem falá direito… imagina ele lá cum as autoridade no instrangero…nem pegá nos taié ele ia sabê…até queria, mas vô votá no FHC mermo...
Eu:
- ... mas a gente também não comete "erros" de linguagem e ainda assim é apto?
Ela:
- é, mas a gente num vai cê presidente, né, Galldino.
O que responder diante desse preconceito, dessa submissão intelectual, dessa conformação a uma suposta inferioridade insuperável?

Explicar, com a sabedoria de um Paulo Freire, que o saber não é apenas o oficial, o das academias; Dizer que aprender é observar, experimentar... O saber é um rio que passa, muda, transforma e se transforma. Não uma represa cercada por muros, distribuida e regrada por alguns.

O conhecimento não está restrito aos domínios e pátios universitários. Na realidade, as universidades surgiram muito tempo depois do conhecimento humano, e vieram para "catalogar" e transmitir o
conhecimento que já existia acumulado nos tempos dos tempos e que continuaria (continua) nascendo por toda parte: aquém e além dela.

A verdade e a razão não estão no canudo entregue pelo reitor ao primeiro da turma. O primeiro, o último e aquele que nem era da turma possuem, cada um à sua maneira, valores e competências reais e fundamentais.

É bom lembrar que as áreas do nosso conhecimento nasceram, muitas delas, de observações intuitivas quando não se pensava, se quer, em criar títulos doutorais. O saber, por definição, resulta da curiosidade individual.

Lula, o ex-sindicalista, não era analfabeto. Se fosse nem poderia ser candidato. Ele é um autodidata. E sabemos bem que boa parte dos gênios da história humana, com suas maravilhas, também o foram. Pra findar: não há o curso especializado de Presidente nas universidades, que eu saiba.

Certo é que Lula tinha o saber do metalúrgico, do líder sindical, do negociador, do dirigente, do político, do cidadão, do homem, do povo... Saberes mais do que suficientes para administrar um país. Hoje isso é fato comprovado pela história e ele é um doutor formado no mais auto posto da nação.

Um advogado certa vez me disse que era terrível ter um presidente que cursara apenas até a quinta série: "tinha que ser proibido isso", garantiu-me. Pra mim, horrível era ouvir um sujeito que investira anos aprendendo leis e, formado, desrespeitava a constituição ao desejar banir um direito. Mesmo assim não achei que tal bobagem daquele letrado devesse ser proibida: ser livre. Mesmo na tolice.

FHC, o intelectual da Sorbonne, ganhou duas vezes.

E o povo seguiu esperando o "bolo crescer" pra, só aí, comer um pouco. Eu sei, ninguém precisou me contar: como cobrador de ônibus no Rio, balconista em São Paulo, nada mudava. Das pessoas ao meu redor, amigos, vizinhos… Nunca ouvi uma palavra se quer em forma de elogio quanto ao vaidoso senhor.

A TV e os jornais, por outro lado, diziam que ele era uma espécie de lorde. Um Guru lindo e poliglota. Eu sei que, acima das privatizações, alguma coisa ele fez de bem. Só não sei ao certo pra quem.

Lula foi eleito e reeleito. Sinto na pele as mudanças.

Enfrentou o ódio dos donos das notícias; o preconceito dos arrogantes; a pressão dos poderosos... Manteve, porém, um viés popular em seu governo. Chamam-no de populista. Pergunto: algum dia algo em benefício dos pobres será visto como "de direito" e não como "esmola" da elite (financeira) amesquinhada? Há que se duvidar.

Mas é importante ressaltar também: esse governo que vai findando agora tem a melhor de todas as avaliações. E em todas as classes.

Disso tudo aprendi que acusações em tempos de campanha são bravatas: guerra moral, ataque contra nossa inteligência, tentativa de desequilibrar o processo eleitoral, ato de desespero ou a prova da
incapacidade de fiscalizar durante os quatro anos do mandato combinada a uma aguçada capacidade repentina de resgatar "crimes" antigos, renovando-os, logo que a vitória vai ficando improvável.

Notei: essas acusações partem sempre do segundo colocado contra o primeiro. Vejam: não há nenhuma acusação ou escândalo contra Mercadante em São Paulo. Mas quando ele for para o segundo turno e ficar em primeiro nas pesquisas... aí certamente haverá. Estranho? Nem um pouco. É imoral mesmo.


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Não voto em acusadores ou supostos paladinos da boa moral impoluta.

Voto pelas propostas e no que representa uma candidatura. Há poder judiciário, polícia e liberdade de imprensa neste país: que ajam, como estão agindo. E ainda melhorem. Candidato e partido não devem ser juíz, polícia e imprensa tudo ao mesmo tempo, pois seu objetivo, no fim, é ganhar as eleições. Essa confusão de interesses só serve pra ludibriar o eleitor. Não dá. É patético.

Cada um na sua.


Você pode e deve ter a sua própria história e percepção das mudanças políticas. Não vai (só) na onda da "Veja", da "Globo", das rádios, dos jornais... Percebe por si mesmo e pelos seus pares. Não é um idiota.
Idiota não sou também. Idiota, na origem grega da palavra, é aquele que se fecha em si e não participa da coisa pública, certo? Certíssimo.

Nessa eleição está bem claro pra mim: Dilma representa o governo de Lula e Serra represeta o governo de FHC. Não dá pra ser outra coisa!

Quando alguém diz que não vai ouvir minhas músicas ou que eu me vendi (aliás, não há preço que pague um Galldino, mas quando ele se dá, saiba, é completamente) ou me corrompi por estar do lado de quem tem a ver com minha história, com minha raiz social, com minha formação... Só posso perguntar:

Se eu assumisse uma escolha sexual, uma espiritualidade, um time... enfim, se eu revelasse outras escolhas subjetivas, esses agressores também revelariam seu ódio como revelam diante de minha preferência por votar em Dilma e Mercadante? Ou apenas querem nos calar ou intimidar?
Se a resposta é sim, digo sem ter nenhuma dúvida: de fato estamos em lados opostos.

Sou pela liberdade.

Quem condena liberdades conquistadas e assumidas age violentamente contra todos nós. Como aqueles que torturaram a moça valente, Dilma Rousselff, por lutar pela democracia. CANALHAS!

Esse tipo de atitude condiz com a dos ditadores e suas falsas "boas" intenções infernais.

Façamos nossas escolhas conscientes. Em todos os aspectos da vida. Votemos em quem nossa sabedoria determina. Mas, pra começo de conversa, vamos nos respeitar. Vamos combater os mitos poluidores.

Chega desse ódio cretino. Vamos fazer do voto uma festa: a festa das escolhas livres e francas.

Abraço os que me criticam de forma honrada.
Critico, faço troça e provoco respeitando cada preferência. Nela está o saber e a inteligência.        Vamos às urnas, cidadãos.

Pra mim agora é Dilma e Mercadante.
Eis as razões.

Ama a vida e segue!