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Um povo musical

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Quando você vai pra um concerto de Rock, Pop, Jazz ou do que for, o que vai ouvir? E quem faz a música soar pra chegar aos seus lindos ouvidos? Os músicos, claro!

Perguntas óbvias assim deveriam ser feitas nas salas de aulas, do ensino fundamental até a pós-graduação. Talvez dessa forma conseguíssemos conscientizar o brasileiro da importância daquelas figuras tidas como secundárias nos eventos musicais: os músicos.

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Certa feita a professora me sugeriu uma redação sobre o "povo musical" que somos. Minha conclusão: festivos, sim - realmente quase movidos pelo som: há música ao nosso redor desde que acordamos e até no nosso sono - mas isso não faz de nós um povo musical.

Pra ser bem franco acho que somos um povo barulhento, isso sim. E não estou (des)qualificando essa ou aquela música. Gosto nem vem ao caso aqui.

É ruim ir contra os mitos bonzinhos que embalam nossa doce ignorância, eu sei.

Mas pense bem: como pode ser esse um "povo musical" se não há educação artística alguma no nosso país (como se houvesse alguma educação)? E o que é esse negócio de "musical"?

???

Pra mim o termo aí (povo musical) representa uma soma de crendices tão irracionais quanto o medo do trovão.

Por exemplo: no imaginário geral a música é um dom. Uma nuvem branca (ou azul cintilante) desce sobre a cabeça de algum(a) sujeito(a) "iluminado(a)" e piiiimba: eis a maravilha da inspiração.

Tsc, tsc, tsc!!!

Cômico. Sinto muito, pode ser duro ler isso, mas essa magia aí não existe, não. Mentiram pra você.

Pelo menos não existe sem o estudo, a pesquisa, a dedicação, o experimento, a busca incansável. Ou seja, não existe sem muito trabalho (ainda que intuitivo). E assim é também para o engenheiro e para o psicólogo, citando aleatoriamente. Mas nesses casos todos acham natural.

Você considera essa relação fantasiosa com a música algo inofensivo? Eu não. E digo qual o motivo de minha cisma.

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Cheia de mitos e farsas assim, nossa visão da arte produz muitos preconceitos. Inclusive, e principalmente, contra os próprios músicos. Exato, contra esses caras que estudam horas e horas pra fazer a sua festa tão agradável. Afinal, se eles estudam, não devem ter o tal "dom". Além do que, não cantam, não compõem... só "acompanham".

Hum...

Logo, eles não são "escolhidos" nem "inspirados". São, isso sim, uns reles, uns comuns: "insetos ao redor de uma luz ofuscante, um astro, uma estrela."

Tanto faz um músico ou outro qualquer já que ninguém notará muito: não são da primeira classe, esses serviçais. Não lotam teatros, não aparecem na tv, não tocam no rádio, não ostentam fortunas... Só acompanham. Mas "isso aí qualquer um faz!".

Desprezados pelo público, pela crítica, pela indústria, pelos astros, pelas estrelas e, por fim, por si próprios, fogem do seu "país musical" em busca de alguma dignidade e reconhecimento no exterior, além de um plano de saúde pra velhice.



As vezes eles arriscam gravar um CDzinho "sem voz" por aqui (a moçada descolada acha que é uma introdução interminável pra uma canção que nunca começa) e vão mofar no gueto, no limbo da "música instrumental". Apelido escroto que serve pra segregar artistas extremamente competentes que dedicam, no mínimo, 50% do tempo "livre"de suas vidas para uma única causa: tornar a nossa existência (ouvintes de música) agradável ou pelo menos suportável, já que, como ensinou Nietzsche, "sem música, a vida seria um erro". Ora, sem músicos: sem músicas. Percebe?

Mas você deve estar achando tudo isso um exagero. Então, por favor, Moacir Santos: esse nome lhe diz algo?



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Veja que dei só um dos fatores malévolos gerados (em parte) por essa falta de cultura musical verdadeiramente rica. Não vou nem falar no nível sofrível de alguns astros e estrelas "iluminados", campeões absolutos de vendas e da adoração do "povo musical" ("povo" aqui nada tem a ver com a idéia preconceituosa que essa palavra ganhou em relação à classe social, entenda).

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Do meu ponto de vista, não deveria existir essa baboseira de "música instrumental". Nem a idiotice de que "artista" é quem canta enquanto "músico" é quem toca. Em primeira análise, quem toca é tão artista quanto quem canta e quem canta é tão músico quanto quem toca. Todos num único objetivo. Todos dignos de admiração, valor e respeito.

Pra fazer sentido existir um gênero musical chamado de "instrumental" e feito só pra músicos, como dizem, deveria haver outro, o dos cantores(as) "a cappella", "vocal". Os dois clãs não deveriam gravar ou se apresentar juntos já que seriam rivais. Ridículo?

Evidentemente há formações só instrumentais, como há só vocais também. Mas não são gêneros nem classes. Muito menos deveria representar gosto ou casta. Por qual motivo então, no Brasil, é assim com a "música instrumental"?

É, é ridículo mesmo!

Estou delirando?

Então me acorde do pesadelo: alguém me diga o nome de um músico (não cantante nem "acompanhante": carreira solo como músico) que consiga viver bem desse nobre ofício no nosso tão musical Brasil.

...

 Ok, diga apenas "meio nome" então!

Nada?

Pois é. E como aceitar que um povo musical teria o disparate, o atrevimento, a ignorância de desprezar assim seus músicos, representantes por direito adquirido dessa musicalidade?

Não dá.

Pelo visto teremos que esperar um Gilberto Freyre na literatura musical escrever o "Casa-grande e senzala" dos músicos. Um Karl Marx da batuta construir a "mais-valia" sob a forma sonata pra elucidar essa tenebrosa relação. Músicos do Brasil inteiro, uni-vos!

Bom, verdade seja dita, unir músicos é tarefa árdua. Afinal, todo esse caldo, revelado superficialmente aqui, sufoca as mentes dos inconscientes artistas do som (ou músicos) que vêem a si próprios como coadjuvantes "naturais e imutáveis"no cenário MUSICAL. Que contraditório, não acham?



No universo da música, o músico deveria ser (e no fundo é) o espetáculo. Cantando ou tocando. Só seria menor que ela: a própria música. Já que no fim ela é a única soberana, ou deveria ser. A musa!

É preciso honrar os nossos músicos, isso sim. Saber ouvir a tal "música instrumental" pra alçá-la ao posto de arte grandiosa que ocupa no mundo inteiro é carência urgente nesse nosso país. Educar!

Fato é que enquanto não houver educação musical capaz de habilitar o músico ao seu devido posto de artífice inestimável e indispensável das festividades e deleites musicais diversos; enquanto o espectador não nutrir um profundo respeito pelo trabalho e dedicação desse tipo de artista não haverá "povo musical".

Nem aqui nem na China.

Só um povo barulhento mesmo. Nada mais.

Vivas aos artistas como Paulo Moura que carregam a nossa sublime música como exilados pelo mundo:



Que o Brasil seja a casa dos seus talentos forjados na pela e na alma!

Ama a vida e segue!
@galldino