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VÍDEO DO DIA

Como o abuso de poder fere a democracia e a arte!






O texto é de 30 de março de 2008. De lá pra cá o Teatro Mágico foi boicotado no estado de São Paulo, mesmo quando milhares de pessoas exigiam sua participação em eventos produzidos com dinheiro (também) dessas milhares de pessoas.
Tudo por causa de uma pizza? Não creio. Algo me leva a crer que seja fruto do desprezo e da arrogância no "jeito Serra de ser".
        
 “Não, tem que ser agora!”

Foi o que me disse aquele senhor ranzinza que por pouco não me arrastou teatro à fora, enquanto eu desligava o notebook. Devo confessar que minha perplexidade se confundia numa profunda indignação: acabáramos de fazer um espetáculo lindo; casa cheia de um público felicíssimo...
        
Que motivo teria aquela figura irascível para tamanha rudeza?

Calmamente fui conduzido por alguém da nossa equipe para o ônibus. Fiquei sabendo, então, de uma certa pizza indigesta. Sim: a produção d'O Teatro Mágico optou por não jantar (uma simples questão de tempo no retorno pra casa) e pediu pizzas, "magoando" o diretor do teatro estadual que insistia que comêssemos o jantar que nos esperava. Achei a coisa no máximo engraçada, mimada...

        
Mas a tudo iria ficar mais sério.

Dias depois a agenda estava alterada: apresentações foram canceladas.

Soube da ameaça, “dedo em riste”, de que não nos apresentaríamos mais em eventos patrocinados pelo Estado.
        
O que será tudo isso? Vaidade? Inveja?

Bobagem: somos apenas fagulhas. Pessoas poderosas apagam fagulhas todos os dias.

Ah, mas essa não! Essa arde. Arderá!

É bem verdade que para certos poderes a cultura deve ser tratada como artigo de segunda.
      
Artista não pode virar “estrela”. Não pode julgar que, por receber os aplausos, o respeito e o aval
do público, tenha direito a algum tipo de dignidade.

Até essa nobre alcunha, “artista”, é reservada às sublimes figuras televisivas e radiofônicas. Nós não: somos carne de segunda. Independentes. Soa no nosso inconsciente um forte “quem vocês pensam que são?” Saberíamos com quem estaríamos falando?

O que se estampa aqui bem diante da sua, da minha cara, é um estrondoso “cale-se”. É um “quem manda aqui sou eu!”.

Você, enquanto eleitor, contribuinte, cidadão, público, não representa nada. Eu, como artista (se me permite) sou o reles que deve beijar a mão do suposto mantenedor do teatro estadual. Ele pode brilhar: única estrela... Ainda que ninguém o aplauda.

Porém, a corajosa atitude dos membros do Orkut demonstra o que podemos nessa nova realidade“interconectiva”. Tal qual um zumbido de mosca na orelha de um gigante malvado, eles estão “incomodando”. Assim se faz a cidadania. Assim deve ser a nova democracia, como nenhum grego da Antigüidade ousou sonhar. A nossa voz precisa ser ouvida.

Por outro lado, temos que acertar bem em cheio a orelha. Quem são os malvados? Como pode a mosca afetá-los?

Com o voto. Melhor: com o não voto neles.

Não é o Teatro Mágico que está sendo caçado, cerceado. Não é apenas o público do TM que está sendo profundamente ofendido em seu direito cultural: aqui a afronta é contra todos os artistas. Todos os cidadãos. O espaço público está sendo violado pela imoral demonstração de força de alguns.

Nesse ano de eleições, atente bem para esses atores e seus parceiros de poder. Avise seus amigos. Espalhe a nova-velha: esse tipo de imposição, essa demonstração de poder, aliás, de abuso do “pequeno” poder, permeia algumas administrações.

Fique bem atento, meu caro: você pode votar na tirania. Você, nas próximas eleições, pode eleger odevorador da liberdade de expressão artística.

A arte liberta. O administrador, muitas vezes, condena ao ostracismo.

Não permitiremos. Aqui não!

Mesmo com a covardia e ação imoral desses governantes o Teatro Mágico fez 300 apresentações em 2009. Muitas e muitas delas totalmente produzida pela trupe-produção, como chamamos a equipe de bravos de Gustavo Anitelli. Se hoje pagam $40mil por uma apresentação d'O Teatro Mágico é pelo fato de que passamos as dificuldades da estrada sozinhos. Sem apoio e sem ajuda. Minto: tivemos o único apoio que queremos levar e honrar pra sempre: o do nosso querido e inestimável público. Que nos carrega no colo. Não pela nossa beleza, certo? Mas pelo fato de verem garra, talento, honestidade e verdade no que fazemos.

José Serra, se eu não votaria na sua figura nas próximas eleições, hoje eu juro: jamais votarei em ninguém que venha a se aproximar de sua figura horrenda. Essa conduta vil de mando coronelista nunca terá o voto deste violinista aqui. NUN - CA!

Ama a vida e segue!
@galldino