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VÍDEO DO DIA

Timidez (Final)


Beijei sua face.

Por que seus olhos me fugiram? Confessaram sentir mais alento no fundo chão onde eu me enterrava, quanto menos você me olhava. Os brilhos, até aqui inabaláveis, de repente soçobraram. Por quê?

Eram os seus ou os meus pés, o que você tanto caçava?

Doara-me essa maldição de ubiqüidade: enquanto eu corria no labirinto que era eu, perdido em mim mesmo, caía de seus olhos semi-serrados na terra úmida, no vasto mundo. Lugar nenhum onde eu estava, mas você não.

Onde eu "não", era você. Mas, se me desejava contemplar, percebia quem não me enxergasse a mim, em nenhum lugar.

Talvez fosse aquela minhoquinha (que eu nunca vi) o que entretinha sua mente possivelmente vazia.

Suas pálpebras desciam lentas... lentas... lentas...

Mas tão pesadas que a gravidade não lhes suportava, e as cortinas daquelas janelinhas desmoronavam: furavam o chão, perpassando, atravessando o Globo de cima à baixo e de baixo à cima até vazarem na Via-Láctea.

Percebi minhas mãos desejando segurá-las como se eu tivesse alguma força heróico-descomunal. Qual nada: se quer, balançaram. Agora era eu quem não mexia.

Destarte, sentia tudo em meu redor girar girar girar!

Tão rápido que a moleza inerte da luz não acompanhava essa tonitruante roda que nos engolia para alguma “antiórbita”.

Éramos, ambos, um buraco negro no centro de uma grande nebulosa. Mumificados num instantâneo que se estendia do passado ao futuro, e deste ao aquém sem fim, transpassando-nos nesse ínterim, dando de ombros ao contínuo.

Marejem, meus olhos d’água. Justifique-me, amor(ticínio):

Caía sobre mim a sombra que o tolo exalta... lamenta: ata, fosse uma canção; rima, sendo o que peito tece.

O bálsamo que, somente aos esculpidos pelas mãos sublimes do denodo, fustiga e consola, agora espanca-estanca “eu”.

Esse medo que castiga, intimida o frio; dorme nos temerosos infelizes. Agora, me é pertence.

Ó, “porquê” d’além-razão de quem não crê. Sabe. Resvale na escuridão, precipite na dor. Transfigure-lhe. Liquefaça-me. “Solitude-se”.

Pois eu amo. Pois eu vivo. Pois eu sinto. Pois eu, eu, eu: VOCÊ!

Entoava, numa cantiga minha, escrita ali, em pauta de éter, nas córneas (mais que silício) da memória, aquele átimo... aquele átimo... aquele átimo...

“O amor abriga e fere” mas o tempo é cicatriz.

Fim.

Ouça "Amorticínio - a canção", relacionada ao conto:

Ama a vida e segue!