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VÍDEO DO DIA

Timidez (5a. e 6a. partes)

Leia:
1a. e 2a. partes
3a. e 4a. partes


Nos aproximamos.

E pela primeira vez em toda minha tola vida sabia: havia eu. Sim, agora sim, Deus existia. Qual outra explicação?

Que o cosmos não tenha fim nem começo e esteja além do “ser ou não ser”, do “ter ou não ter”, do “estar ou não estar”, não me é estranho.

Mas, cair o véu que me tampava ao seu olhar, mais, à claridade que de dentro, das profundezas inalcançáveis de você, brilha sem par, e ainda me sentir ancho nesse cadinho sem dimensão...

Não, não havia acaso. Alguma força cooperou, coordenou; regeu cada ataque da orquestra do destino. Teceu com corda forte e imática atraindo o que era solto na imensidão abstrusa das emoções para atá-la em mim pelos dias dos séculos: agora!

Bem sei que quaisquer outras nunca existiram. Jamais existirão.

...E meus lábios foram aos seus...


Qual ímpeto teria arremessado o destemido rumo à dor lancinante de sua auto-negação?
A lascívia secretando o medo ou o medo denunciando a lassidão?

Que desajuste seria suficiente para fazer-se supor capaz, o alfinete, de suturar a constelação?
Da loucura revelar-se ante o desejo ou do desejo negar-se sob a razão?

Quão soberbo o ébrio seria em (cheio de tontice) desvelar-se são?
Qual a tolice que desnuda o âmago ou como o âmago que soterra a paixão?

Assim fui eu!

Meus lábios navegaram um caminho sinuoso cheio de ambições subterrâneas. Subcutâneas. De monstros mais vorazes e assustadores que os de qualquer Gulliver ou da Gama.

Na verdade um descaminho sem volta, e de ida. Nunca chegada.

Desaforada, desafortunada, desencorajada, desavisada: Pobrezinha a boca minha que de lábia nada tinha.

De tão delgada, gelada, trêmula e angustiada, desviou-se e aportou na parte curva dessa proa, seu rosto, que desce desde a linha d’água dos cabelos até o convés principal da nau flutuante. A boca.

Nas maçãs carnudas agora em puro sangue, carmesim frondoso, de sua face candente, repousou solene e silente. Em demasia, decente.

Ama a vida e segue!