Páginas

VÍDEO DO DIA

Timidez (1a. e 2a. partes)

Sob a luz.

O Sol despencava das alturas mais assustadoras. Espantosas. De súbito aconchegava-se nas folhas finas e frágeis; nas gramíneas douradas pelos raios cintilantes, com inenarrável delicadeza.

Todas as formas eram suas criaturas; todas as criaturas eram formadas e desenhadas pela sua língua que a tudo lambia sem permitir que nada lhe escapasse.

Não se tratava de liberdade poética. A poesia era imposta sem que outra forma de expressar-se pudesse ter a menor validade, qualquer ciúme ou vaidade.

Após banhar as árvores, as calçadas, os casais de mãozinhas coladas; os bichos desatentos, as avós com seus netos, e o que mais era parte desse frescor frugal, a luminosidade cumpria seu objetivo maior, único para mim, ao trombar com aquela figura exuberante. Ainda que, com seu fulgor, ela não carecesse de Sol algum, que de luz própria.

Era o meu conluio com a luminescência daquele dia que lhe justificava ao fazer com que a moça se colasse às minhas meninas e morasse nesta retina quase cega de decifrar tantas cores com acuidade faminta de tal visão.

Eu vi você...
E se eu fosse o astronauta pisando pela primeira vez na lua, não veria a incrível esfera azul. Sim, veria esse rosto cândido. Pois ele é para mim mais que todo o universo.

E se, agora, tivesse eu a opção de atentar nas coisas insignificantes à nossa volta, perceberia como tudo está estático. Como o tempo é petrificado. Congelado. Estancado no momento da contração da minha pupila ao lhe ver alheia. Pasmo e apaixonado!

Veria a gota d’água equilibrada no espaço logo depois de saída do bico da torneira, qual cena de alta resolução no cinema. Veria o avesso do som sem ter como se propagar. que até o imperceptível, delicado e afoito movimento das asas daquela que desliza bela, abelhinha, seria o necessário, ou melhor, o suficiente para romper, irromper; corromper com tristeza lacerante e terna. Quebrar, estilhaçar; como uma pedra na vidraça, como o agudíssimo da soprano frente ao cristal, como a bomba de Hiroshima bem no meio do meu quintal, esse único e infinito momento.

Contraditoriamente, se todos os bilhões de homens, mulheres e crianças gritassem furiosamente no mesmo instante, e ainda tendo como aliados todos os seres animados e inanimados que possam provocar alguma espécie de ruído; essa enorme e inédita grita, seria, aos meus ouvidos atentos ao seu suave arfar, como uma pena de andorinha alva vinha caindo do pináculo da cordilheira dos Andes no epicentro negrume abissal da terra.

Volto a afirmar que toda essa ladainha, todo esse suposto infame e tudo mais são meros delírios. que até o vento, neste instante, é empedernido.

Ama a vida e segue!