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VÍDEO DO DIA

História de pobres e estúpidos

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Foi no longínquo ano de 1998 quando os seguintes fatos ocorreram.

Lá, internete era coisa de esquisitos. Eu, pelo menos, só conhecia um internauta e suas pesquisas complicadas. Mas não é sobre isso que vou falar.

Naquele ano eu acabara de gravar meu cd-demo, Pandorga Sacra, e dava aulas de violão. Lembro-me de que às vezes tocava minhas músicas para alguns alunos.

Um desses, em certo dia, se prontificou a me apresentar para seus amigos. Gente do rádio, da tv, das gravadoras...Gente do meio, enfim.

Fiquei receoso, afinal, muito dificilmente alguém age por puro altruísmo. Mas ele me garantia que só queria ter parte na divulgação de um artista desconhecido. Topei então ir ver os samaritanos que me retirariam da masmorra e me elevariam ao posto de astro "iluminoso".

Primeiro fomos a uma grande emissora de rádio. Já no estúdio, sobre uma mesa, uma coisa me chamou a atenção. Num “roteirozinho”, preparado para o próximo programa, se lia algo do tipo “‘sicrana’ fará uma senhora com voz emocionada pedindo a música ‘tal’”. Ri comigo: então eram esses os “ouvintes” que "telefonavam" e construíam sua lista de “mais pedidas do dial”. Tudo era uma encenação, percebi.

Noutra sala, tocamos meu CD para um disperso especialista em “potenciais artísticos”. Uns 30s. de cada canção foram o bastante para o veredicto: “é legal, bom, mas tá cru...nenhuma rádio toca assim”. Óbvio, pensei, era uma DEMOnstração, oras.

Por fim, ele aconselhou-nos a procurar “fulano”, produtor fantástico que resolveria o problema num piscar de olhos, já que, disse o sabichão ali, era evidente: “o som tem potencial pra bombar!”.

Lá fomos nós ao encontro do mago dos estúdios.

Esperamos praticamente o dia inteiro. No finalzinho da tarde ele chegou com seu visual "modernoso" e descolado, todo simpático e faceiro. Falou em particular rapidamente com meu aluno e depois pediu: “voltem ‘tal dia”.

“Tal dia” chegamos pela manhã (fazer esperar deve ser uma das formas de fragilizar o interlocutor) mas ainda não foi nessa vez. Só depois de algumas idas e voltas frustradas conseguimos efetivar o encontro.

Foi então que meu aluno decidiu ser bem direto: “olha, tô aqui com o Galldino, um puta compositor e blau-blau-caixa-de-fósforo-e-etc-e-tal-e-mais-coisa...”.

Depois de ouvir, o produtor explicou:

- É pagode? Tô fora de pagodeiro. Agora só quero MPB. Algo durável. Pra começar de baixo. Direito.

Até hoje não sei bem ao certo o motivo dele ter dito isso, talvez meu cabelo lembre o estilo dos rapazes do pagode... O certo é que era a época do declínio comercial desse ramo da música brasileira.

Foi aí que peguei, incentivado por meu aluno, um violão que estava num canto e comecei a tocar todo meu repertório. Sei lá quantas, uma atrás da outra. Sem parar.

O cara se disse impressionado: “é isso aí. Esse é o som!” E continuou:

- Você já tem editora pra essa porrada de música?

- Editora? Ah, não...só canto em casa. Pra mim mesmo.

- Seguinte: vamos por um mic na sua frente pra você sair cantando como fez agora. Fique tranquilo, cara, ninguém quer suas músicas. É só pra você ter isso documentado. Registre tudo na minha editora. Não vai gastar nada. E tem mais, sem edição, fique sabendo, gravadora nenhuma vai te pegar. Se pegar, vai editar lá mesmo, aí você fica na mão deles eternamente!

- Ah, tendi... – sussurrei, meio duvidando de que ele fosse assim tão mais bondoso do que “eles”.

Nesse momento, meu aluno abriu um sorriso maroto seguido de gargalhadas semi-histéricas. Olhos faiscavam e mãos nervosas se agitaram:

- E você achando que sou otário de trazer qualquer coisa aqui...vamos falar do cd?

- Bom, - disse the producer, já maquinando – pra gravar eu vou chamar só a nata dos músicos. Deixo na mão de “beltrano” o lance dos arranjos: já mando pau na máquina escolhendo o repertório. Pelo que vi tem material de sobra, certo, Galldino?

- Sim, mais de 100.

- Já basta. A mix é nos Estados Unidos. Vou toda semana pra lá. Tranquilo: levo esse material. Aqui não tem mixagem que preste. – Sentenciou nosso expert.

- Vamos falar do mais importante agora: valores! – esse era meu empresário, digo, aluno que ouviu automaticamente a pronta assertiva do outro:

- Uma produção do nível que quero fazer não vai custar menos de que 50 paus. E se for pra fazer porcaria, desencana. Não entro.

Nessa hora eu pensei em sair da sala. Mas ela estava tão engraçada: fiquei. O aspirante a violonista e (agora eu via) homem de negócios nato mandou:

- Ah, muita grana. Pra mim que sou seu amigo rola um esquemão, né?

- Cara, você é praticamente um irmão. Conheço esse moleque desde pivete – explicou pra mim.

Confesso que quase chorei. Você, lendo o texto, já deve estar de lenço encharcado, não?

– Posso fazer a metade desse valor. Mas sem a mixer. Não tenho como bancar isso dos gringos. E tem que ser lá. – sentenciou um, ao que o outro concluiu:

- Tá bom, tá bom...esses detalhes a gente acerta depois.

O telefone tocou. Era uma ligação particular e the boss saiu pra atender. Aproveitei pra falar com meu aluno:

- Mano, se eu tivesse 50mil eu mesmo produziria meu CD. Não tenho como pagar isso.

- Relaxa, Galldino. Deixa com a gente. Você é o artista.

Lord Sidious, ops, o empresário voltou e fiz uma pergunta:

- Depois que a gente tiver o cd, como saber se agradará as gravadoras e como tocar nas rádios?

- Tocar nas principais rádios do eixo Rio-São Paulo fica em uns 200mil mangos. Mas aí já é coisa da gravadora. E sobre as gravadoras, essa é a parte boa de produzir comigo: já fui presidente de todas as grandes que estão no país. Entro na sala de qualquer executivo a hora que eu quiser. Não vou dar o cd pro cara ouvir. Vou ouvir ali com ele, tomando um café. Até já tô pensando em levar sua música antes da produça pra um ou dois que eu sei que vão adorar. Quando o produto tiver pronto, jogo na mesa dos caras e faço um leilãozinho: a melhor oferta leva.

- Melhor oferta? – perguntei com cara de “palermolinista” – mas os caras vão comprar?

- Claro, Galldino – respondeu nosso querido orientador – não vendo por menos de 100mil!

Percebi que ele tinha se arrependido da frase no segundo logo após o monossílabo “mil” ter soado no recinto:

- É...a gente vê uma comissão pra vocês dessa grana depois. Não é praxe, mas uns 10%, dependendo do valor, pode rolar: fica frio que você tá em boas mãos!

Outra vez ele teve que se retirar rapidamente da sala. Nessa hora, um que estava ali no papel de claque ou “motivador” disse:

- Esse cara ali é o cara. Ó lá – indicava o mestre ao telefone – já tá espalhando seu nome, teu som: não perde tempo. Você teve sorte, Galldino. Bicho, tá vendo esse armário aqui – apontou uma espécie de “cemitério dos cassetes e cds” – isso não é nada, velho. Lá em cima tem o dobro disso. Por mais que a gente ouça, não dá pra ouvir tudo. É muita gente, muita concorrência...Teu som é muito bom, se não a gente nem tava falando nada pra ti, só tem macaco-velho aqui, mas abraça esta que é a sua oportunidade.

Quando o outro retornou, foi quase como uma demonstração ensaiada do ballet bolshoi: “vamos estourar esse champagne ou não?”, era a já clássica pergunta que fechava os negócios.

Rimos. Eu com o sorriso amarelo-verde-oliva e eles com o do arco-íris.

Fiz a minha última pergunta, a chave de ouro do nosso banquete:

- Então, caso a gente vá fazer tudo isso, vender pra gravadora e tal...já que vai rolar nas rádios, fazer sucesso, etc., até lá, como eu me mantenho?

Na verdade, eu queria mesmo era saber se alguma de todas aquelas cifras chegaria ao bolso do pobre “cantadô”. Ele riu e respondeu lacônico:

- Galldino, com esse seu violino, você chega em qualquer restaurante de São Paulo, dos chics, toca de mesa em mesa e vai se sustentando. Garanto!

Naquela noite voltei pra casa querendo dar cambalhotas: acabara de viver uma das situações mais surreais de minha vida. Presenciara o mecanismo da cultura do POP-music-industrial.

O final da história é o mais lindo.

Numa manhã, meu ex-aluno e, logo em seguida, ex-possível-futuro empresário, me informou do seguinte:

- Decidimos tudo lá. O cd vai ser produzido: 30mil pratas. Deixa essa parte da grana que já tá tudo acertado. Fica sob minha responsabilidade. Vou ser seu empresário e 70% de tudo que você ganhar nos próximos 6 anos serão meus.

- O que, 70%?! Acho muito...E que TUDO é esse?

- Tudo, Galldino. T-u-d-o: se você ganhar pra tocar num funeral, 70% são meus.

Foi assim. Pura verdade. Não é fictício, não.

Eu preferi continuar cantando pra mim mesmo.

Do contrário, perderia a autonomia e os direitos das minhas músicas na editora de “quem-não-podemos-mencionar-o-nome”. Não decidiria nada na gravação nem seria proprietário dos fonogramas, além de que passaria a ser um burro de carga, doando 70% de tudo que eu produzisse.

E pensar que toda essa loucura nascera a partir de simples musiquinhas, compostas e cantadas num quarto vazio.

É assim: relações amesquinhadas, falsas, corruptas e enganadoras numa cadeia em que o único fim é o lucro abusivo e da qual o motor é a ganância desmesurada.

Evidente que produtores precisam ganhar por seu trabalho e que um caçador de talentos possa se transformar em empresário. O problema são os valores morais torpes e confusos.

Não há ânima? Não me animo.

Pelo menos, depois dessa, tive mais confiança no valor extrapessoal das minhas composições, já que o intra me era certo.

Hoje estamos em outra fase da história. A internete, com seus internautas "bixo-grilo-high-tech", mudou tudo.

Quem decide o que deve ou não fazer sucesso, pelo menos em pequena (mas digna) escala, sou eu, é você e somos nós. A boa qualidade da produção cultural depende disso. Desse engajamento consciente.

Assim, ouçamos mais e diversifiquemos nossas escolhas. Vamos debater sobre a qualidade do gosto: do que se lê, do que se vê e de tudo mais.

Me sinto livre – freedownmusic – com milhares de pessoas ouvindo e recomendando a música nascida nas masmorras d’um certo "fulano de tal": Galldino!

Obrigado.

Ama a vida e segue!
@galldino

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