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Fred (Flintstone) bom: adiós! – Viva la #FreeDownMusic

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Conflitos estéticos e disputas entre grupos e correntes artísticas são das coisas mais comuns e manjadas. Bem-vindas também. São constantes em absolutamente tudo: novas tendências sempre se chocam com velhos costumes e fórmulas estabelecidas.

É assim mesmo.

Porém, houve momentos em que o debate alçou voos mais altos. Ora, eram conceitos como “belo” ou “sublime” que estavam na ordem do dia; eram os que defendiam uma postura política e contestadora contra os que garantiam que essa não seria função da música; eram defensores das “origens” e identidades regionais versos os que se conformavam em copiar matrizes “impostas”.

Que pena, hoje nosso debate é bem outro: trata-se de pura e simples ganância. De saber o que dará lucro e em que escala tornará a música “viável”.

Foi nesse universo que, há pouco tempo, certo vocalista afirmou que a internete era um ambiente reservado aos amadores e medíocres. Baseando-se no contexto, poderemos denotar que o sentido era pejorativo: quem expusesse sua obra na internete seria, em princípio, sem proficiência. Incompetente mesmo.

Era uma afirmação ridícula. Sem nenhum cabimento. Darei duas provas irrefutáveis de que estou certo.

1) Hermeto Pascoal liberou suas partituras, gravações e vídeos na rede. Trata-se simplesmente de um dos maiores músicos de todos os tempos. E estou me referindo a HISTÓRIA DA MÚSICA UNIVERSAL. Ponto pacífico.
2) Sarah Chang está entre as mais sensacionais violinistas da atualidade, dessas superdotadas da música erudita com seu rigor e apuro técnico: parte do seu legado também foi liberado de graça. Não por ela, em desobediência, mas por sua gravadora, a gigante EMI.

Basta? Não: sabemos que é infinito o número de grandes artistas que estão se valendo da internete para divulgar e fazer chegar à público seus trabalhos, em muitos casos de altíssimo nível. Soberbo e supremo.

Quanto aos adjetivos: ser amador é a base fundamental para qualquer ofício. Afinal, o termo também diz respeito aos que amam, aos que se dão, aos que se dedicam movidos pelo encantamento. Assim, é o primeiro passo que devemos dar. O profissionalismo vem depois e traz consigo uma série de deturpações mesquinhas e pragmáticas. É um ponto ao qual chegaremos, por força das circunstâncias, mas jamais deveremos perder a mola propulsora: o amor ideal. Aliás, é isso o que falta nos tempos correntes: paixão, idealismo, romantismo. Amadorismo!

Certo? Certo!

No quesito mediocridade nem vale se ater muito. Mas: Leonardo da Vince não era medíocre, certamente. No entanto, não produziu tudo o que existiu no período renascentista. Quem movimentou a arte do seu tempo dando-lhe equilíbrio e orientação foram os medíocres. Assim foi também L. van Beethoven: pairou sobre todos, extrapolou o romantismo. Mas sem “todos” não saberia por onde começar. Nem teríamos, hoje, parâmetros para divisar sua genialidade. Não há picos sem média. Não há média sem base.

Minha pergunta é bem direta: nossos críticos supõem serem (dentro do seu nicho, diga-se) equivalentes a um Villa-Lobos ou a um Pixinguinha? Até poderiam ter esse infame delírio arrogante, mas o fato é que não são. Nem no Pop nem no Rock nem na crítica musical. No máximo são “média” (mídia?). E há boa probabilidade de estarem situados logo abaixo dessa.

Pra finalizar, a “genialidade” só se comprova no distanciamento histórico. Não cabe aí autoproclamação ou golpe de marcketing pessoal. Logo, até que o tempo prove em contrário, somos todos medíocres lutando por um lugar ao sol.

E xeque-mate, capiche?

O fato é que a internete é uma plataforma democrática: não rejeita nem distingue ninguém. Há coisas toscas que chegam ao burlesco mas há o mais alto nível da produção criativa do ser humano também.

Essa vitrine imensa que vai se tornando indispensável é a possibilidade mais viável e consistente de expressão para milhares e milhares de artistas segregados por uma indústria fria e sua pequenez capitalista. Sua linha de montagem baseada no consumo acéfalo e sem orientação estética, ética, política, humana.

Evidente que o capitalismo é uma realidade inabalável (será?). Evidente que valores são modeláveis, maleáveis. E assim devem ser. Claro que há alguma estética, ética e etc. no consumo vazio. Mas, me parece, é esta: uma pasta apáticopatéticoesquemática.

Os artistas deveriam estar do lado da liberdade de expressão. Dos amadores e dos gênios. Não do da mesquinhez egoísta e deletéria. Acho eu, claro.

Quando vemos certos “Midas” às avessas (transformam em lixo tudo em que tocam?) afirmando que somos estúpidos ao doarmos nossas próprias obras; que somos a escória e estamos abaixo da “alta” produção do stabelishment “cultural”, vemos também que é a hora do bom combate. Do rebate e do enfrentamento sinceros.

Face to face.

Produtores deveriam caçar, garimpar, lapidar e produzir talentos reais. Não (des)construir ruínas estéticas. Farsas visíveis, risíveis e desprezíveis. Sim, é disso que se trata a programação das rádios: um truculento e enojante esquema calcado em fabulosas quantias de dinheiro para vender um enlatado abominável.

Chore sua real condição, caro “ouvinte” ensurdecido.

Por tudo isso, não é possível aceitar ditadores do “mau-gosto” exigindo uma censura total ou parcial sobre nós. Não é digno ficarmos calados diante da desmoralização de nossa imagem relacionada à expressividade técnica ou intuitiva; objetiva ou subjetiva. Sabemos (do) que somos capazes: temos qualidades elevadas e valorosas. Não podemos aceitar afrontas gratuitas. Não se trata aqui de “arrogância”. Muito menos de “humildade” diante do cinismo que nos ameaça (outra vez).

Desafio qualquer um desses “baluartes” da criatividade divina: vamos por em prova nossos conhecimentos, nossos desvarios estéticos, nossas elucubrações poéticas.

Venham quem se dispuser. Escolham suas armas para um duelo de ideias. Eu vou com o violino, com o violão, com minha voz e minha pena, mas antes de tudo com 20mil x 1milhão de internautas dispostos a desvendarem a verdade por trás do mito do Mito.

Esses sabem, assim como eu, que é hora de comemoração também: o gigante malvado que nos calou a voz e nos negou a vez está confuso. Piscou.

Não somos medíocres. Não somos estúpidos. Não somos espertalhões “roubando” a música dourada dos arautos da sensibilidade.

Somos, isso sim, a mais atrevida e atuante democracia com a qual nem o mais delirante dos gregos ousou sonhar: Internautas bem mais que virtuais - dedo em riste na cara do senador, no nariz do legislador, no olho do furacão da nossa identidade - "digam quem faz suas canções e não me importarei com quem faça suas leis".

Não vamos deixar nossas melodias em mãos enganosas e farsescas. Somos ouvintes e cantantes "proferindo SEUS refrões"! Somos música para baixar. Somos #FreeDownMusic - rede adentro net afora.

É importante ressaltar, entretanto, que não me coloco de forma gratuita ou infantil em contrário a gravadoras nem a seu cast. Há grandes nomes. Possíveis acordos e escolhas. Que não sejam, porém, levianos com a arte viva fora desse nicho.

Unâmime ainda é a convicção de que devemos cultivar, em meio aos debates e divergênicas, um profundo respeito mútuo.
Res – pei – to!

Ama a vida e segue!
@galldino