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Brevis - sobre Hedonista
















 De Galldino (cc)

De minha parte, prefiro pensar no lado realmente importante dessa nossa transitoriedade. De nossa passagem pelo maior espetáculo do qual todos os canalhas, todos os honoráveis, todos os vilões e todos os heróis tiveram o fantástico privilégio de participar: a vida.


Ainda há pouco me lembrava da esperança ardorosa, em menino, de ver algum dia a “passagem do ano”. Queria tanto não dormir pra ver o momento exato em que um morria e o outro nascia...


É verdade, tive uma certa decepção quando finalmente consegui manter-me acordado: vi apenas alguns adultos gritando.


“Cadê?”, me perguntava.


Tempos depois percebi que, talvez, essa seria uma das grandes decepções que nós carregamos: é mentira, o ano nunca passa.


Foi mais ou menos por esse tempo que pensei também: qual e como terá sido o momento exato em que, verdadeira e profundamente, tomamos consciência da nossa mortalidade? De que estamos morrendo agora.


Hoje reflito no motivo pelo qual esse momento é prontamente apagado de nossas mentes. Por que fugimos dessa verdade insofismável?


Com certeza isso terá sido mais atordoante que minha descoberta de fim de ano. Muito mais marcante.


Porém, essas percepções todas me parecem insignificantes quando penso no como custamos a chegar aqui: quantos decênios, milênios, eras?


Por isso, acho que este momento agora (e hoje entendo bem a “passagem do ano”) deveria ser sagrado e cultuado. Não direi “todo o tempo” para não corrermos o risco de sermos fundamentalistas de nós mesmos.


O que deveria realmente nos assombrar se não a nossa vez nesse imenso banquete?


Se eu não fosse “eu” o que, então, seria? Nada?


Apenas “serei” por alguns breves momentos lançados nesse universo infinito: minha insignificante existência, minha consciência disso, minha inconsciência de tanto mais e minha aconsciência do que eu puder.


Não é a morte, como um fato vindouro, que transforma a vida em algo espantoso.
A morte, a nossa morte, sempre esteve aí bem antes de nós.


E quantos anos eu poderei vir a ter? Cem?


Pois isso é nada. Uma fagulha no gigantismo que é a insignificante história humana frente ao cosmos.


Imagino a resposta de um senhor centenário, sobre a sua percepção da vida: "passa muito depressa: foi hoje de manhã, quando sugava as doces mamas embalado pela cantiga de mamãe."


A grandiosidade, meus bebês (e somos todos nenéns) é a vida como fato agora. É ter acertado em cheio nessa loteria: fomos sorteados com o prêmio dos prêmios. E, ainda bem, não acertamos sozinhos.


Estamos todos nesse momento particular, participando da festa das dores, dos prazeres, dos temores, dos amores, das alegrias e das saudades.


Saudade.


Eles, os que se foram mais cedo da nossa farra-existencial, também estiveram aqui e, de alguma forma, ainda estão.


Pode duvidar. Mas creia... Creia!


Então, o que falar de todo esse, digamos, desespero?


Pra mim, seria bom, em algum momento dessa tontice, percebermos que não é o ano quem passa. Somos nós. E, mais ainda, não é ele, quem renasce também somos nós.


Talvez seja uma surpresa soberba descobrirmos que podemos nos embriagar ou delirar dessa obviedade que é o hedonismo: chega de dizerem qual deve ser nosso cruzar e descruzar de pernas. Nos pertencemos: corpo belo, mente sã e alma livre.


Uma existência pagã!