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VÍDEO DO DIA

Começando a dizer "até breve, Brasil".

Mesmo para os céticos o destino reserva surpresas e coincidências inexplicáveis.

Hoje eu peguei meu violino e saí de casa pra ensaiar. Tranquilo, com tempo suficiente pra chegar cedo, fui caminhando pensativo e com o peito cheio das emoções que me assombram há algumas semanas. 

De repente, sem nenhum motivo aparente, uma senhora me aborda:

- Olha só, entro na loja e pergunto se o vendedor tem uma peça, aí ele responde logo que não tem e nem a menor ideia de onde eu vá encontrar. Como podem ser tão despreparados? Quanta má vontade.

Eu fiquei parado ouvindo a insatisfação dela e, sem saber o que dizer, dei uma risadinha sem graça. 

Ela continuou:

- Na Europa é tudo diferente, sabe? Eu vivi 15 anos lá. As pessoas querem ajudar, te dão atenção. Eu chegava num lugar e cantava Elis Regina - com todo respeito àquela grande cantora: "Upa neguinho na estrada, Upa pra lá e pra cá...". Você é músico?

- Sou violinista. Onde a senhora morou na Europa?

- Itália. Mas a gente pega o trem e vai pra toda parte. Eu dava aulas de português, cantava... Eu tinha um repertório de 70 músicas brasileiras: Tom Jobim, Pixinguinha, Cartola... Sabe essas coisas que ninguém dá valor aqui? Lá veneram. 

- Então a senhora dá aulas de italiano aqui no Brasil agora?

- "Sì, do lezioni di italiano in Brasile". Um aluno meu, executivo que precisava fechar negócios lá, teve três meses de aulas comigo e arrasou na viagem. Lá eu fazia traduções e compunha letras de canções. 

- Poxa, eu sou compositor também. Que coincidência. 

Peguei um cd de dentro do meu estojo e entreguei pra ela. Aí eu contei meus planos. 

***

Na verdade eu sempre tive vontade de ir pra Europa. Em 2004 passei 2 meses na Holanda. Foi uma das mais incríveis experiências de minha vida e mudou muito o rumo das coisas. Agora, após uma reviravolta nos planos que eu havia traçado para minha vida (e também com a crise moral, política e econômica no país), esse desejo aumentou tanto que decidi ir mesmo. Meio sem rumo, sem saber por quanto tempo e sem um plano exato. 

Preciso sair pelo mundo, redescobrir algo que sumiu de dentro de mim, tentar dominar dores lancinantes, criar uma nova alma para um corpo que envelhece...

Vou levar um violino, um violão, um iphone e uma mochila com o básico pra cobrir a pele. Não quero levar os pesadelos nem os sonhos. Quero superar a voracidade que todos temos de possuir coisas e pessoas. Mas, ao mesmo tempo, quero conhecer tudo e todos. 

No iphone irão os livros digitais, a câmera fotográfica, a filmadora, o bloco de notas e a internet para eu contar as novidades para quem se dispuser a acompanhar essa minha "trip". 

No violão levarei as velhas canções e a vontade de retomar a prática da composição, tão abandonada.  

No violino levarei todas as minhas emoções: lágrimas que ardem sobre o estandarte e escorrem pelo queixo acendendo saudades imensas; a certeza das conquistas e as dores das perdas. Do violino será a difícil missão de me reconstruir e me manter de pé. 

Na mochila vão apenas as roupas e alguns tostões pra segurar a fase de adaptação. 

Mas quando pensava em me desligar do pouco que é tudo o que tenho aqui no Brasil me dava um certo pavor. Por isso saí perguntando aos amigos e às amigas o que achavam dessa minha doidice. Todos disseram: VAI GALLDINO, VOA! 

Mas a dúvida persistia...

Hoje, do nada e sem explicação, eis que surge essa senhora na rua me falando, sem motivo aparente, sobre suas viagens.  

Depois de ouvir meus planos de viajar ela disse:

- Você tem que ir. Vá ver outro mundo. Vá tocar em lugares incríveis que você nem imagina. Vá, vá, vá sim!

Eu tentei segurar as lágrimas, mas não sou bom nesse quesito. Desatei a chorar e abracei a estranha como uma velha amiga. Ela colocou a mão morna e confortável no meu rosto:

- Oh, Galldino, que bom coração: você tem que ir logo. 

E assim eu saí chorando, já meio atrasado pro ensaio. Ela ficou lá na calçada falando enquanto eu andava com a visão embaçada: "vou ouvir seu cd, Galldino, você vai se dar bem em Toulouse, Madri, Amsterdã..." 

***

E foi assim que Galldino teve certeza de que seu destino é mesmo dar um tempo do Brasil. 

Os próximos meses desse ano serão para me preparar para essa partida. Gostaria de gravar mais um cd e um dvd num show de despedida pra quem gosta do meu trabalho e acompanha minha história de músico. Mas pra isso vou precisar do apoio de todos.  

Como eu disse, não sei quanto tempo vou ficar fora do país. Pode ser um dia ou o resto da vida... Não sei. O destino vai cuidar desse detalhe. É por isso que gostaria de contar com a presença de todos nesse show de despedida. Ainda não sei quando vai ser, mas a viagem será no início de 2017. 

Só um milagre agora mudaria minha vontade e necessidade de partir. 

E agora, quem vem se despedir?